Vamos a contas.

Defini interesses para o ano de 2017 e um objectivo específico para o mês de Janeiro.

Agora que inicia Fevereiro, está na altura de confessar (com orgulho!) que o propósito para o mês que acabou, “essencial ou acessório” (partilhado aqui no blog), foi bem sucedido. Aliás é para manter, parecendo que não ajuda a perceber melhor os vícios do corpo e os valores da alma.

Também em Janeiro foram dados os primeiros passos na fotografia, passei muito mais tempo com os meus patudos, cozinhei frequentemente e portei-me para lá de bem na escrita de conteúdos aqui no blog. Já o objectivo de ler um livro por mês falhou redondamente. Fevereiro será o mês para iniciar a leitura!

Para este mês cheguei a pensar que o objectivo específico seria iniciar caminhada três vezes por semana. Mas Fevereiro é o mês mais curto do ano, a chuva cai forte, o vento assobia e a preguiça fala tão alto. Vou-me ficar por re-experimentar Pilates e convencer-me que a sua prática com regularidade não é uma opção, a escolha é só mesmo a do local e o horário.

Sobre alimentação mais saudável e beber mais água, falaremos em Março. Afinal o ano só está a começar. 😜

Poder, disse ela.

Há meia dúzia de anos atrás eu e o A. fomos almoçar a Guimarães. O restaurante ficava muito perto de uma estátua de Afonso Henriques. Lembro-me até hoje de ficar a olhar para ela e pensar porquê ele? Porque não o João que morava numa qualquer praça, ou o José da porta ao lado, ou o Joaquim da esquina? Porquê o Afonso?

Este pensamento não tem nada a ver com o dito Afonso, tem muito mais a ver com todas as pessoas que simplesmente o aceitaram como tal.

O tempo de Afonso Henriques já lá vai há muito, mas nunca deixou de haver “Afonsos” até hoje. E como não sou anárquica, espero que assim continue.

A questão é como se chega a “Afonso”? Como conquistar a confiança e o respeito de um povo (ou pelo menos da sua maioria)?

Nos tempos que correm esta deve ser pergunta para um milhão de dólares. Depois do Brexit e de Trump, até os maiores estudiosos de política internacional têm muito pouco para acrescentar nesta resposta.

Alegadamente os candidatos fazem a sua apresentação, defendem as suas ideias e os seus ideais, andam de terra em terra para conquistar o maior número possível de eleitores, e, como nos ensinam os contos de fadas, ganha o melhor, o mais justo, o mais competente.

Da pessoa no cargo do poder, seja como presidente de um país, de um governo ou de uma empresa, espero proactividade, respeito, credibilidade, honestidade, inteligência, empatia, coragem, astúcia. E ainda mais! Se tenho de o aceitar como líder deverá ser por o admirar e não por me ser imposto.

Tenho dificuldade em resignar-me, mas infelizmente já estou melhor nisso do que há uns anos. Conformar-me isso já é mais difícil. Talvez daqui a uns anos diga, sem grande estímulo, que a minha resignação e a minha conformação andam de mãos dadas.

Como podemos aceitar de ânimo leve que façam e desfaçam, e voltem a fazer, o que lhes apetece com os nossos direitos, com as nossas conquistas, com as nossas crenças?!

Mesmo quando compramos um par de calças podemos arrepender-nos e devolvê-las. E com quem não honra a cadeira do poder, o que podemos fazer? Comer e calar? Esperar que a pessoa mude ou saia do cargo? Despedirmo-nos da empresa?

Efectivamente, pelo que se diz, quem manda tem até o direito de mandar nas nossas vidas – directa ou indirectamente. Tem um direito grande! Mas os direitos e os deveres são directamente proporcionais. Quando temos um papel tão importante na vida de outros devemos-lhes o nosso melhor. E todo o melhor deve ser trabalhado e melhorado todos os dias.

O pensamento a curto prazo, o princípio do próprio umbigo, a adorável zona de conforto, os amigos lambe-botas, o machismo, a chica-espertice, o factor cunha, enfim, os princípios que regem a larga maioria.

Infelizmente estamos a anos luz da meritocracia!

Neste preciso momento sobra-me o Papa Francisco para continuar a acreditar.

O resto, quer a nível governamental, quer a nível empresarial, parecem-me personagens saídas do Auto da Barca do Inferno. Até nós, pessoas normais, estamos representadas pelo Parvo.

Diz-se que a moda é cíclica, que de x em x anos, voltamos a usar o que já tinha estado na berra mas foi considerado piroso com o passar dos anos.

Será assim também com a evolução humana? Parece que a evolução acontece durante uns anos para depois seguirmos para a involução e, novamente no ponto zero, voltamos à evolução. E por aí vai.

A paz no mundo, o fim da fome, a harmonia entre os povos, são de tal forma clichés que usualmente são considerados “os desejos das Misses”. Quase como se estivéssemos todos a gozar com o que cada desejo representa. Parece que é esta a esperança que cada um tem na humanidade… 🤐

Laura, Lady Laura.

Lady Laura, Laurinha, Láu, Lalau, Ratita, Ervilhinha, Coxinha de Darque. Uma das peludas que eu vi nascer, a última dos quatro.

A Laurinha é cativante, sedutora, dengosa, meiga, linda, amorosa! Tem um olhar apaixonado e apaixonante!

De todos foi a que nos pregou os maiores sustos.

O primeiro foi uma noite e um dia fora de casa. Corremos todas as redondezas e nada, o meu coração estava apertado, não fazia ideia de como a poderíamos encontrar. Foi com os berros da avó que ela ganhou coragem de miar e o pai foi a correr na sua direcção. Veio ao seu colo, agarrada e com o coração a bater forte.

A história repetiu-se dali a uns tempos, dessa vez também esteve fora uma noite, foi dormir na casa de uma vizinha, mas decidiu não contar nada a ninguém. A avó descobriu-a e deu-lhe colo no regresso a casa.

Há quase um ano o comportamento dela mudou, ficou mais parada, menos brincalhona, com o olhar ligeiramente mais distante, vomitava com frequência. O diagnóstico não foi fácil de fazer (e foi feito graças à persistência da avó) e também não foi fácil de encaixar. Tinha cálculos renais a entupir o uréter e corria risco de vida.

Nessa noite eu nem sabia pensar. Mas Deus dá-nos anjos disfarçados de amigos e foi a T. quem nos deu a mão. Fomos directos para um hospital e a nossa menina foi operada de urgência.

Conquistou médicos e enfermeiros (e que equipa fantástica!). Apesar das dores, espalhou charme e fez muitas amizades.

A recuperação foi um sucesso (também com os mimos da equipa de Viana) mas tornou-se insuficiente renal e, como tal, tem predisposição para infecções urinárias.

Nos últimos meses esteve estável, feliz, meiga e brincalhona.

Esta semana voltou a ter sintomas de dor. O pânico voltou. Em 48 horas estavam feitos todos os exames,  o diagnóstico foi o melhor possível, é “só” mais uma infecção urinária.

O amor que vejo no olhar dela, aquele mio, as turras, o morder as unhas, o dormir achicharrada… Indescritível!

Diz-se e, é verdade, ser mãe é viver com o coração fora do peito. O meu deve estar de mão dada com o coração do pai, que é o melhor do mundo! 💕

27 de Janeiro.

Aparentemente não publiquei no dia 27 de Janeiro. Já passa das 00:00. Mas a verdade é que aqui estou e com o coração cheio.

Adormeci com o cansaço das últimas 48 horas, por isso não cheguei a tempo. Mas estivemos na hora certa onde mais fazíamos falta, certo A.? ❤️

Pedro, Hamid e, por certo, muitos outros.

Começo este desabafo com uma manifestação de interesse, sou pessoa que não gosta muito do ser humano no geral. Acho que ainda somos um animal absolutamente primata, norteado por instintos primitivos, com uma tremenda falta de respeito pelos outros e uma abusada cara de pau entre direitos e deveres. Nota à redação: tenho a sorte de conhecer honrosas excepções (e infelizes constatações!).

Por isso mesmo, não sendo fundamentalista, também não sou pessoa que gosta de se aventurar nessa coisa de conhecer novas pessoas, socializar, conviver assim no geral.

Desde que me lembro por gente sempre fui mente aberta. Muito ajudou ter sido educada por uma mulher que se divorciou há quase quarenta anos e que refez a sua vida amorosa várias vezes. Durante muitos anos ensinou-me (com palavras e atitudes) que não somos o que os outros pensam de nós, somos o que lutamos pela nossa felicidade.

E, também desde que me lembro por gente, sempre fui dona do meu nariz. Não acho que os outros possam definir os meus limites, as minhas regras, os meus desejos.

Pela minha história, pela minha personalidade, pelas pessoas com quem cresci, cedo aprendi que a minha liberdade acaba onde começa a do outro. Aliás considero esta uma das minhas mais bonitas virtudes. Acrescento-lhe a forma como, de maneira geral, encaro o preconceito.

Não sou racista, não defendo a superioridade de nenhuma religião, estou muito longe de ser homofóbica, e por aí vai.

Mas, e há sempre um mas, já vivi situações onde a minha capacidade de julgar foi muito mais rápida que a minha capacidade de observar.

Ontem foi a minha mais recente experiência. Estava a fazer voluntariado, com a T. e o M., quando se aproximou de mim um rapaz, de bicicleta, que me perguntou se eu falava inglês. Olhei para ele e disse-lhe que não. Quis evitar qualquer conversa, que em milésimas de segundo, imaginei ser para me pedir alguma coisa. Pois que, na verdade, o rapaz era voluntário da mesma associação e, como estava de bicicleta e nós estávamos a pé e carregados, o que ele queria mesmo era oferecer-nos a sua ajuda.

Soube mais tarde, por outra colega, que ele era recém chegado à associação. No dia em que se inscreveu, agradeceu várias vezes por, sendo estrangeiro, o deixarem fazer parte do projecto. Possivelmente esta será uma forma de integração à nossa cidade, a pessoas com uma cultura diferente, num país muito longe do seu, onde até a língua não ajuda.

No fim das contas, mesmo sem ser sua intenção, deu-me uma bela lição. Quão altruísta eu, que até estava a fazer voluntariado… Só me esqueci de um “pormenor”, era por pessoas e para pessoas que ali estava.

Nada como ver primeiro e julgar depois.

Eu fui ontem pela primeira vez, pontualmente, para dar um apoio ao M. até a T. chegar. Ele, desde que começou, vai todos os dias. Eu achei que ele me ia pedir alguma coisa. Ele só queria oferecer ajuda. 🤔

Autopsicografia.

A minha exposição artística foi muito curta até aos dias de hoje.

Estava no nono ano quando me deixei convencer a declamar um poema de Fernando Pessoa, em plena praça central da minha cidade, vestida com um fato e caracterizada com bigodinho, óculos e chapéu de coco para lembrar a imagem do próprio poeta.

Houve todo um conjunto de ensaios com mais duas colegas que me acompanhavam à viola. Estávamos em perfeita sincronia, elas começavam, davam o tom, no momento certo eu iniciava e, quando terminasse, havia mais dois ou três acordes. Simples assim.

Sinceramente, já não me recordo qual a efeméride que justificava tamanha iniciativa organizada pela nossa escola, mas, como eu, participaram muitos alunos, cada um com os seus “cinco minutos de fama”.

No dia, enquanto me vestia e me caracterizavam, já estava muito nervosa. A minha timidez, mas também a minha tenra idade não me davam qualquer tipo de segurança.

Desci as escadas, entrei para o palco e vi diante de mim dezenas de pessoas sentadas e outras tantas a pé, encostadas ao que podiam. No centro estava uma câmara de filmar, sobre um tripé, com um “cameraman” e a  luzinha vermelha ligada.

Tive a inteligência (ou o instinto!) de fixar o olhar numas letras de um reclamo colocado no cimo de uma loja, assim não via as caras das pessoas e quase dava para acreditar que não estava muita gente. Mas nesse momento eu já estava em pânico, não fazia qualquer tipo de movimento e tenho dúvidas que sequer os meus olhos pestanejassem.

As colegas que me acompanhavam à viola estavam, pelo menos aparentemente, seguras de si mesmas. Começaram a dedilhar e o som espalhou-se pelo recinto, eu conseguia ouvir mas não conseguia processar qualquer outra informação. Não sabia quando devia começar, nem tão pouco o que dizer, tive uma branca completa!

Lembro-me que, de repente, percebi alguém a acenar tresloucadamente para mim, era a minha professora de português (a responsável pela proeza!) a dar-me a primeira frase. Nesse instante abri a boca e deixei as palavras sair, com tanta pressa que quase se atropelavam umas nas outras. As colegas da viola, que tiveram de tocar os primeiros acordes mais do que uma vez na esperança que eu acompanhasse o tom, dedilhavam ferozmente para acabar a música o quanto antes. É que não só não entrei no tempo como disse todo o poema à velocidade da luz.

Nunca cheguei a ver o vídeo, creio que para guardar a esperança que não foi tão mau quanto deve ter sido.

Por obra do acaso não estava lá ninguém dos meus, por isso esta cena não perdura nas histórias da família.

Durante anos lembrava-me deste episódio com um frio na barriga, cheia de vergonha. De há uns anos a esta parte lembro-me com um sorriso nos lábios só de imaginar a cena. Como é bom saber rir de nós mesmos! 🎸