Happy Birthday Nina.

Faz hoje 84 anos, onde quer que esteja. A maior parte dirá que já morreu, na verdade eternizou-se com uma coragem arrebatadora: “I’ll tell you what freedom is to me – no fear!”

Mulheres, se hoje somos mais livres também a ela o devemos.

Nina Simone, uma rebelde com causa, cantou o que sentiu “’cause i’m just a soul whose intentions are good. Oh Lord, please don’t let me be misunderstood”.

Numa das suas letras, e numa estranha coincidência com o dia de hoje, lembra-nos que o amor próprio é uma âncora da qual nunca devemos abrir mão “You’ve got to learn to leave the table when love’s no longer being served”. Um beijo no teu coração V.! 🎧

Be happy!

Sou de luz, de sol, de calor!

Não gosto do frio mas gosto das primeiras chuvas e do cheiro que deixam na terra. Creio que a chuva tem o mesmo efeito que algumas lágrimas – purifica o ar.

Sou das teimosas, das que insiste em levantar-se sempre que cai!

Confio, sei que a fé move montanhas!

Gosto de gostar, e embora goste de poucos, desses gosto muito!

Gosto da capacidade de ver oportunidades nas dificuldades.

Gosto de música, de comer, de vinho.

Gosto de rir e sentir-me feliz.

Mas, e o trabalho que isso dá?!? A energia que consumimos para fazer-nos felizes? A determinação que é preciso para não descambar?

Ser feliz dá muito trabalho, ser infeliz parece mais fácil.

Um infeliz encontra motivos e pretextos para continuar a ser assim e está sempre mais acompanhado. À partida ninguém o inveja, há até os que têm pena dele (a começar pelo próprio). E como há sempre alguém que está pior, um infeliz vive aquele misto de emoções: o alívio por não estar tão mal e a tristeza pelo mal do outro. Não importa quem seja, desde que garanta a tristeza. No fundo, bem vistas as coisas, o que importa mesmo é ele próprio.

É inimaginável o quão difícil é a convivência entre duas pessoas que se amam mais que tudo, fazendo uma esforços para ser feliz e a outra entregando-se simplesmente à infelicidade. É indiscritivel o esforço da alma para assistir ao dia-a-dia do infeliz e, ainda assim, manter viva a força de ser feliz.

Um infeliz está preparado para quase tudo, até para o fim do mundo. Mas teme tudo, até o fim do dia.

Um feliz acha sempre que amanhã é outro dia. E que só pode ser melhor!

Nada como um dia depois do outro. E que o que vier a seguir venha por bem! 😺

Oh captain, my captain…

Se a memória não me atraiçoa, o primeiro filme que fui ver ao cinema foi de desenhos animados (não me recordo do nome). Tenho ideia que havia borboletas e que uma magoou-se na asa. Não sei se chorei, mas lembro-me que tive vontade. Fui com a minha mamy e com o N., suponho que numa tarde de sábado ou domingo.

O cinema era num edifício independente, não ficava dentro de shoppings como agora. Lembro-me que tinha uma bilheteira no exterior, uma única sala, que eu achei enorme e, mesmo na sua entrada, havia um bar com muitas gulodices no balcão.

O “Clube dos Poetas Mortos” foi, a julgar pela minha memória, o segundo filme que fui ver ao cinema, mas desta vez com a minha turma do quinto ou do sexto ano, não sei bem. Sei que foi a pretexto da disciplina de inglês, e estou quase certa que foi numa sexta feira à noite.

Vi o filme atentamente, senti emoções incríveis, nunca mais esqueci a expressão “carpe diem”. Mas se houve momento que me tocou foi quando, à saída do professor, por este ter sido expulso, os alunos sobem para as mesas e começam a declamar “Oh captain, my captain”.

Já voltei a ver o filme dezenas de vezes. Com o passar dos anos o meu olhar sobre a história tornou-se mais profundo e mais filosófico.

Mas o momento que mais me emociona continua a ser exactamente o mesmo. E, acreditem, desconfio que pelos mesmíssimos motivos que há quase trinta anos atrás!

Sempre senti que aquela cena era repleta de coragem, admiração e ousadia: um professor que ousava fazer com que os alunos pensassem pela sua cabeça, a admiração que lhes conquistou e a coragem que eles tiveram para demonstrar que perceberam a mensagem.

A única diferença que essa cena me provoca está na crença. Há quase trinta anos acreditava que os professores existiam exactamente para fazer-nos pensar pela nossa cabeça, para que descobríssemos o mundo. Hoje sei que a maior parte deles nem sabe como isso se faz.

Vivemos pelos parâmetros que alguém definiu serem certos ou errados, buscamos no ontem o comportamento de amanhã. Somos cópias, mais ou menos fiéis, uns dos outros. Não arriscamos fugir muito do “normal” sob pena de sermos julgados em vez de julgadores.

Corremos a vida inteira atrás de qualquer coisa que não sabemos bem o quê. Sacrificamos a nossa saúde, o nosso descanso, a nossa família, em nome do “tem de ser”. Procuramos posses materiais que, acreditamos, nos atestarão como sendo pessoas de sucesso.

Num mundo onde se paga balúrdios por obras de arte originais ou por objectos de luxo exclusivos, contentamo-nos em ser simples réplicas, feitas em massa, para consumidores pouco exigentes.

Agrada-me acreditar que, enquanto aluna, teria coragem de subir à mesa. Aliás, agrada-me acreditar que teria coragem de ser a primeira a subir à mesa, e de lá ficar, mesmo que mais ninguém subisse. 📽

Amor, uma a ele outra ao dinheiro.

Foi há três semanas que a P. e o C. vieram cá a casa trazer-nos o convite para o seu casamento.

Por altura do Natal, quando falamos para trocar os votos, disse-me que tinha uma surpresa para me contar, arrisquei logo adivinhar: “vais casar!”. Não podia ter acertado mais, nem podia ter ficado mais contente.

O C. é genuinamente boa pessoa, com bom coração. Tem os seus defeitos, como todos, os seus vícios, como a maior parte, momentos onde só é parvo, como muitos, mas tem sempre bom coração, como poucos.

Conheço o C. há mais de vinte anos, creio já ter alguma propriedade para dizer que o conheço bem.

A P. apareceu na sua vida há meia dúzia de anos atrás, mais coisa menos coisa.

Tenho por ela uma admiração considerável, não seriam muitas aquelas que teriam a coragem de fazer a escolha que ela fez – enquanto casada não trabalhava, viviam muito bem e ela só tomava conta das filhas. Certo dia entendeu que o casamento estava terminado, mantiveram-se amigos e agarrou-se ao que havia, faz limpezas até hoje, com orgulho de ser quem é.

E é uma mulher bonita, alegre, bem formada, mãe e (já) avó babada, e uma super companheira para o C. – com prova prestada ao longo da maior parte do namoro. Esse namoro que foi tão condicionado porque o C., como filho exemplar, acompanhou o pai durante anos no evoluir da sua doença e até à sua última hora.

Torcer pela felicidade dos dois é intuitivo, não tem como não o fazer.

Mas, e parece que há sempre um mas, o facto da P. passar a ser a herdeira do C. não agradou a todos. Havia quem contasse que o seu herdeiro tivesse mais “sorte”, falo de uma prima do C. que acreditava ser o seu filho o feliz contemplado.

O C. nem é rico, mas felizmente tem a vida estabilizada. O suficiente para cortarem a P. das fotografias onde está com o C. antes de as colarem no álbum, mesmo como quem diz, “aqui não entras”. De pouco lhes adiantará, porque no álbum da vida deles quem escolhe as fotos é ela.

Enfim, não será à toa que sou (e tenciono continuar) socialmente inadaptada.

Honestamente, tenho para mim, que esses que pensam igual não deram conta que na hora certa vão ter de pagar, porque daqui ninguém sai a dever. 💸

 

Que nem a morte nos separe.

Por mais que respeite a diversidade (e respeito!), no meu dia a dia vivo a minha vida entre poucas pessoas e com muitas semelhanças entre si. Tenho a felicidade de conviver com a maioria delas por opção, são pessoas com quem me identifico e de quem gosto muito.

Neste blog já confessei que não sou amante do ser humano e nem pretendo aprimorar a convivência, em muito graças à minha condição de socialmente inadaptada.

Contudo há uma característica que me une, de verdade e com o coração, a muitos milhares de pessoas, tantas e tão diferentes. E acreditem em mim quando digo diferentes: homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, simpáticos, sisudos, de todas as cores, credos e com os mais variados penteados – diversidade no seu estado mais puro.

Pensava sobre isto na quinta-feira quando fui levar a Laurinha à veterinária. À chegada fui avisada que talvez demorasse porque a equipa estava de volta de um cão que tinha caído e, como se não bastasse, depois da queda, tinha sido mordido por outro cão. O rosto das duas senhoras que estavam na sala de espera, creio que mãe e filha, não deixava margem para dúvidas, o cão era delas.

A dada altura ouviu-se o latir agudo do cão, com as dores, e de seguida ouve-se o choro da mãe. Estavam ambas num sufoco incrível.

Eu nunca as tinha visto, e não sei se alguma vez voltarei a ver, mas naquele momento também eu rezava pelo cão.

Quando entrei para a consulta perguntei por ele e soube que o prognóstico era reservado. Voltei a perguntar por ele no final do mesmo dia, as médicas ainda estavam muito reticentes. No final do dia seguinte fiquei genuinamente feliz por sabê-lo bem e em casa nas próximas 24 horas.

Não sei nada daquelas pessoas, a não ser que no sábado tiveram o seu companheiro de volta a casa e, a julgar pela angústia que vi, calculo a alegria que sentiram em vê-lo cheio de saúde.

Tenho para mim que o verdadeiro amor, aquele mesmo puro, sem nenhuma reticência, sem mágoa, sem cobrança, só pode vir das crianças (bem novinhas) e dos animais. É um olhar diferente, puro, enche-nos a alma e o coração.

E amor do bom, daquele de verdade, é amor na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, pelo menos até que a morte nos separe.

Perder um fiel amigo patudo é talvez pior que perder um outro amigo. O outro amigo seria amigo de muitos outros que, parecendo que não, ao chorar a sua perda aliviam a nossa dor. É uma dor partilhada, entendida, expressa, aceite e visível aos olhos de todos os amigos.

Um amigo patudo não, a dor é outra, mais profunda. É tão nossa, quanto nosso foi o amor e a lealdade que nos deram em vida. A troca de olhares, a cumplicidade entre dois seres que falam sem dizer palavra, que se entendem com uma afinidade perfeita, é impossível de descrever e é impossível de partilhar. Entre nós e o nosso amigo, só os dois conhecemos o que vivemos, e só cá fica um para chorar a saudade.

Talvez por isso aqueles que amam os animais são solidários entre si. Porque sabem que só eles entendem o sentir do outro. Isto pessoas, não vem nos livros, só sabe quem sente, não se disfarça. Percebe-se que estamos entre “iguais” pelos olhares, pelos gestos, no cuidado, na protecção, na preocupação, no respeito, no tom da voz, nas palavras que lhes dirigimos… Percebe-se que estamos entre “iguais” quando os outros rezam pelos nossos como nós pelos deles. E nunca são demais.

 

Este post, com muita saudade, é dedicado ao Bota, à Putcha, ao Quito e à Zebra. 🐈🐈🐈🐈

Pensamentos para pensar – II

Hoje faz vinte anos que Darcy Ribeiro faleceu. Não conhecia o seu nome até me cruzar no facebook com um artigo alusivo às duas décadas sobre a sua morte, falava sobre aquilo que fez em vida, os seus ideais e as suas lutas.

Perdi-me de amores por toda a essência que está nestas palavras: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” 👏

Cumplicidades.

Hoje é dia de S. Valentim. Em muitos países, especialmente na Europa, é ele o Santo que apadrinha o dia dos namorados.

Na verdade esta data nem é tanto do S. Valentim, nem tão pouco dos namorados, é mais do comércio que cria motivos para nos ir à carteira mais vezes.

Mas ainda assim, tenho a desculpa perfeita para que o tema de hoje seja uma genuína declaração de amor à pessoa com quem casei.

Não somos um casal de grandes festividades neste dia e nem de prendas (ainda que o façamos muitos outros dias sem nenhuma razão aparente a não ser a vontade). Este ano celebramos com um almoço a dois e jantar na presença de muitos (porque os patudos estavam incluídos, claro!).

O tempo passa muito depressa. Este é o décimo segundo dia dos namorados que passamos juntos, no ano em que fazemos oito anos de casados e treze de namoro (o mesmo é dizer treze de vida em conjunto, já que o namoro propriamente dito foram menos de três meses).

Digo muitas vezes que estamos juntos por mérito teu, pela tua teimosia, porque me viste com os olhos da alma e do coração. Ignoraste a minha “muralha” defensiva, o meu mau feitio, tiveste a paciência e a persistência de aceitar que o tempo seria um aliado na tua conquista e em fazer-me abdicar das convicções de uma solteirona que se acreditava inveterada, e ainda por cima, namoradeira.

Soubeste mostrar-me como é bom dormir achicharrada. Soubeste demonstrar-me como sabe bem o sentimento de paz e de porto seguro que se segue à fase das borboletas no estômago. Soubeste provar-me que não ias embora, nem para comprar cigarros. Fazes-me acreditar na lealdade, na amizade, na cumplicidade.

Construimos um lar, adoptamos e amamos uma família sui-generis (a nossa!), temos um bonsas só nosso, partilhamos gostos e vontades, aprendemos juntos a gostar de sushi, viajamos e conhecemos destinos encantadores.

Tu és Primavera ou Outono, calor ou frio, mais moderado, mais tranquilo, sabes que o mundo não acaba amanhã. Eu sou Verão ou Inverno, tenho resposta pronta e uma frontalidade mordaz, estou mais tranquila mas continuo com sede de vida. Um equilibra o outro e complementa-o o melhor que sabe.

Não, não somos perfeitos. Mas na nossa imperfeição temos um cantinho só nosso que me faz desejar estar contigo até ser velhinha. 👫