O que eu vejo na minha amiga Té.

Aqui há dias recebi um e-mail da Té cujo conteúdo versava sobre, no fim das contas, sermos aquilo que os outros veem de nós.

Pessoalmente acho a coisa mais complexa, tal como me ensinaram há vinte anos (e que tanto me custou aceitar na época!) entendo que somos o somatório daquilo que só nós conhecemos sobre nós mesmos, com aquilo que só os outros conhecem da nossa pessoa, mais aquilo que, quer nós, quer os outros, conhecemos sobre nós.

Aceitar que somos só o que os outros veem é aceitar que os outros são seres capazes de nos ver de forma despretensiosa, sem preconceitos, livre de estigmas e de julgamentos. É confiar que se preocupam em ver o melhor e o pior de nós, que não se ficam pelas aparências.

E eu não sou pessoa capaz de confiar assim nos outros. Só nos meus! E mesmo a esses reconheço-lhes limitações (que não poucas vezes partilho com eles).

A Té é uma das minhas pessoas, daquelas que quero perto, daquelas que mesmo quando não nos vemos durante muitos dias faz-me bem saber que existe e está a um e-mail de distância. Foi pessoa presente em momentos muito difíceis da minha vida, sempre com um abraço pronto. É pessoa que me diz na cara tudo o que preciso ouvir, sem se limitar porque os temas são desconfortáveis.

Conhecemo-nos por intermédio de outra pessoa, comum a ambas, em contexto profissional. De quando em vez a Té visitava, com os seus alunos, a fábrica onde trabalhávamos, como muitos outros docentes, e embora todos nos dirigissem palavras de agradecimento no final de cada visita, lembro-me que só no olhar da Té sentia gratidão pura pela disponibilidade que lhe dedicávamos.

Alguém que a conhece muito bem profissionalmente, há muitos anos, chama-a de rústica. Eu não puderia estar mais de acordo. A Té é rústica mesmo. Faz-me lembrar o tempo dos meus avós, quando os vizinhos vinham ajudar porque a minha avó adoeceu, quando a palavra dada era mais que escritura lavrada, quando na escola os intervalos eram a brincar na terra batida.

A Té é uma das pessoas mais livres que conheço! Ela acha o mesmo sobre mim, mas na verdade talvez eu seja a mais ousada, ela é a mais livre.

A Té não compactua com os caprichos da moda (que a sociedade permite ser tão espartana), não se impõe aos reconhecidos padrões de beleza (mais quilo, menos quilo, mais ruga, menos ruga, tanto lhe faz), não condiciona a sua mente a dogmas, não é de verdades absolutas, não alinha na receita “nascer, crescer, reproduzir, morrer”, não sonha em euros, não cede a consumismos, sente sentimentos (os de verdade) e pensa pensamentos (pensa mesmo, não os copia nem os vomita). É de uma autenticidade intensa e genuína. E é moça que investe de verdade na sua sabedoria.

Há quase vinte anos escolheu partilhar conhecimento com os outros. Trabalha duro para ser cada vez melhor. Entrega-se de verdade para que vejam nela alguém disponível para ajudar. Esforça-se para ser um trampolim para que todos os seus alunos possam chegar muito longe, no trabalho e na vida. Mas, ainda assim, um dia o ensino deixou de lhe trazer felicidade.

A maioria de nós talvez ficasse na mesma, continuava como Professora Doutora, fazia ainda mais Curriculum, insistia e nunca desistia de uma carreira para a qual trabalhava há quase duas décadas.

A maioria talvez, mas a Té é muito mais do que só isso, a Té quer muito mais do que só isso. A Té quer ser feliz!!!

Tem medos, muitos, mas mais importante, tem o inconformismo de não aceitar o “mesmismo”, e é daí que lhe vem a coragem para se fazer à vida. Mesmo que seja a fazer doces, que “só” são os melhores do mundo, têm fruta de verdade, pouco açúcar e muito amor!

Os limites da Té são única e exclusivamente os que ela inteligentemente cria ou criou. É que ela sabe que sem amarras há dias em que levantar vôo pode ser tentador, e ela conhece-se, sabe que é da terra, não é do ar. ❣

8,333 Km.

Foi ontem. Desgarrada pela C., com a sua companhia e a do F., de passo certo que eles já estão treinados, num fim de tarde verdadeiramente agradável, tanto pela companhia como pelo lindo pôr do sol.

Caminhamos mais de 1h30, contornamos a cidade e conheci atalhos que nasceram antes de mim.

Não conhecia o percurso, foi sendo definido à medida que caminhávamos. Ainda bem. Tenho para mim que se me dissessem por onde íamos ficaria sem energia só de imaginar.

Senti-me saudável e cheirou-me a Verão. Quebrei a rotina e o dia pareceu-me ter mais horas. Dei por mim num daqueles momentos “mas porque raio não faço isto mais vezes?!”.

Ficou marcado para amanhã. É manter o ritmo! #verao2017 ⛱

Quem Deus abençoa, ninguém amaldiçoa!

Hoje fui confrontada com uma situação sui-generis. Não foi a primeira vez (e creio que não será a última) que vivi, na primeira pessoa, uma situação de pura maldade alheia, fortuita e gratuita.

Não sou da opinião que fazer maldades aos outros para benefício próprio seja legítimo, correcto ou aceitável, de todo! Mas cá dentro da minha cabecinha sempre há uma “justificação” para a filha da putice.

Mas o que se ganha quando nada há a ganhar? A não ser talvez ver o outro com dor de cabeça, entre papéis e licenças?

Andei o dia todo a pensar nisso. Não cheguei a conclusão nenhuma mas, por exclusão de partes, aposto as minhas fichas em conseguir satisfazer a inveja que há dentro da criatura.

Estou chateada, irritada e grata! Muito grata! Mas mesmo muito grata a Deus, à vida e à minha Mamy por me darem e criarem com um coração do bem. Deve ser do caralho viver sempre na mesquinhice, no amargo do fel, na penumbra, sem paz de espírito, preocupado como e quando alimentar aquele monstro dentro de si.

Acredito mesmo que a vida é outra coisa, muito mais importante. 🙏

Eu procrastino, tu procrastinas, ele procrastina.

E mesmo que tu e ele não procrastinem, eu faço-o pelos três.

Dizem os antigos que sou boa para ir buscar a morte, eu costumo dizer que quando ela chegar vai ter de esperar um bocadinho porque não chego a horas para nada.

Eu Bitaites, confesso-me.

Seria em Maio que as minhas caminhadas começariam. O mês ainda não acabou é certo, mas a ideia era começar logo na primeira semana, de modos que estou assim para o atrasado, não?!

A leitura de Janeiro passou para Fevereiro e assim tem sido mês após mês, não tarda estamos em Junho.

E a publicação diária aqui no blog tem sido… vá, tem sido e isso já é do caneco!

Esta semana teve os seus momentos. Relaxei no Pilates (o bem que aquilo me faz senhores!), continuei na senda de me adaptar à nova realidade da Lara (e continuarei, porque parece faltar um bom bocado para lá chegar), tomei decisões que implicam amortizações.

E sonhei, começa a ser frequente o sonho com projectos futuros.

Dizem que a vida tem o seu próprio tempo, acredito nisso. Mas, assim como quem não quer nada, espero que ela seja das que não procrastina. ⏱

#Salvadorable.

Ganhou! E ganhou tudo o que queria ganhar. O reconhecimento pela bonita voz que tem, a consagração do talento da irmã como compositora, a divulgação da mensagem humanitária que conseguiu passar, a saúde para se manter distante da sua “base” por quase uma semana, a vitória da “música com conteúdo e sem fogo de artifício”.

Ahh, ganhou também o Festival da Eurovisão! Um momento único para Portugal. Importante e emocionante para um povo habituado a conformar-se com resultados mediocres. Mas acredito que para ele tenha sido um ganho colateral, afinal não enganou ninguém quando disse que nunca sequer viu o Festival da Canção.

A primeira vez que ouvi falar dele foi através de um post de Nuno Markl, jurado do Festival da Canção 2017, que respondia a todos aqueles (muitos!) que criticavam a vitória de uma música que nos iria fazer passar vergonhas lá fora. Lembro-me de ter lido o Markl e de ter pensado que cantor seria aquele, capaz de ganhar à Deolinda do The Voice, aquele portento de cantora.

Soube algures que o tal cantor chamava-se Salvador Sobral e era irmão da compositora da música, Luísa Sobral. Talvez por não apreciar muito a voz da Luisa e por nunca ter ouvido falar do Salvador, não liguei nenhuma à coisa. Além do mais desde miúda “sabia” que o Festival da Canção nunca seria ganho por Portugal, questões políticas e financeiras sempre justificaram as pontuações anteriores, e eu acreditei nelas ao ponto de achar que assim seria para a eternidade.

A dada altura fala-se muito se Salvador vai ou não estar presente em Kiev por questões de saúde, foi assim que fiquei a saber que tinha alguma doença complicada. Mas também não foi por isso que vi a edição dele no Alta Definição mais de cinco minutos, enquanto fazia zapping.

Até que… Portugal passa as semi-finais! Achei ainda mais interessante porque havia todo um burburinho na internet sobre o facto de estarmos no top cinco das casas de apostas.

Fui ao YouTube e, pela primeira vez, vi a actuação e conheci a música. Na altura não soube bem definir o que pensei, até que li algures a expressão “performance disney-jazz”, a meu ver assenta-lhe como uma luva. Quanto à música, tem a capacidade de se entranhar, e cada vez que a ouvimos parece entranhar-se ainda mais do que na vez anterior.

Não resisti a pesquisar mais sobre o Salvador. Vi vários videos e admirei cada um deles.

Raio de miúdo tão desengonçado quanto carismático, de boca solta e pensamento livre. Interveniente, inconveniente e consciente. De uma consciência tão pura, nua e crua que inquieta.

Depois da vitória os olhos dele esboçavam surpresa e contentamento, mas nunca esboçaram deslumbramento.

A dada altura sentiu-se-lhe o cansaço, como se a adrenalina tivesse ido embora assim que saiu do palco. A conferência de imprensa fazia parte do protocolo, mas ele não. Recusou o título de herói nacional e demonstrou uma lucidez extrema quando falou da efemeridade da fama. Mesmo sem estar a cantar, todo ele foi emoção, foi verdade, foi simplicidade.

Sem demérito para todo o trabalho da compositora, dos músicos, dos técnicos, foi, acima de tudo, a emoção, a verdade e a simplicidade quem ganhou o festival. E a humildade, a de uma irmã que, escrevendo uma obra de arte, não se apossou dela e a entregou ao seu irmão.

Já foi chamado de arrogante, desalinhado, inadaptado. Afinal o miúdo é ousado, isso sim! Ousou manter-se fiel a ele mesmo, sem nunca pretender pertencer à maioria, conquistar fama, votos ou apoios.

E agora, com a taça, é ver a maioria comportar-se como se ele tivesse sido nascido e criado no seu interior, vitoriosos por terem acreditado nele desde sempre, aplaudindo de pé e incentivado o petiz a cantar desde cedo. Exactamente os mesmos que se insurgiram porque a música não tinha nada para dar ao Festival da Eurovisão, porque não era politicamente correcto falar e defender os refugiados, porque ele tinha tiques estranhos quando actuava e parecia drogado.

Senti uma emoção do caraças ontem. Sempre que Portugal recebia doze pontos inchava de orgulho. Quando acabaram as votações quase chorei. Mas a vitória não foi minha, nem da maioria, nem de Portugal, foi de uma equipa que trabalhou e acreditou que ia fazer bonito.

No final fui ao facebook ver o perfil do Nuno Markl, procurava a sua resposta a todos os que o haviam insultado dois meses antes, procurava o seu próprio ajuste de contas, a sua limpeza de fígado. Encontrei uma das melhores citação da noite “O que está a acontecer na Eurovisão é bonito, pá.”. Estava tudo dito, até porque não era preciso mais.

Nesta edição da Eurovisão o lema era “celebrar a diversidade”. O vencedor esteve à altura. E fez história. Vai ser sempre recordado como aquele que, mesmo com limitações no seu coração, soube amar pelos dois e encantar milhões. 👏

13 de Maio.

Nossa Senhora de Fátima.

Hoje é o seu dia. O dia da fé, da crença, da emoção.

Hoje é dia de relembrar que há coisas que a ciência não explica, que os milagres acontecem e que o amor entre os Homens deverá ser uma constante.

Hoje é dia de acreditar que o que vier a seguir há-de ser melhor. 🙏

Até que a morte os separe.

Não poucas vezes a minha inspiração para a escrita vem do que escuto, seja nos media, seja ao vivo e a cores.

Hoje, na fisioterapia, ouvi a minha querida terapeuta A., noiva há um ano, falar da sua check-list para o grande dia em Setembro com outra paciente, mãe de uma noiva, curiosamente também ela moça casadoira no mesmo mês.

Perguntavam uma à outra se já estavam escolhidos os penteados, os vestidos, os ramos. Trocavam ansiedades e marcas de renome no mundo dos casamentos.

Há toda uma indústria envolvida em torno do “felizes para sempre”, portentosa e talentosa, responsável por transformar meia dúzia de flores num ramo de noiva que irá, por si mesmo, não só embelezar a noiva como ditar a sorte da próxima a desencalhar noivar.

Os valores associados a tudo o que envolve a união são quase pornográficos, mas é suposto ser um dia de sonho. E aí está o que de verdade me intriga, será que desde meninas sonhamos todas com o mesmo??! Ou será que, algures no universo feminino, a ideia de ficar para tia solteira é significado de ter sido rejeitada, de ninguém a querer? Desengane-se aquele que acredita que casar é a oitava maravilha do Mundo. Dividir o espaço e a intimidade com uma pessoa, está longe de ser o exercício mais romântico do planeta. Se não for com alguém que valha mesmo a pena, bendita seja a vida de solteira!

O entusiasmo, o empenho e o custo que a noiva dedica ao seu dia faz, normalmente, com que ela seja a estrela. É como se fosse o seu momento para brilhar. Não é um contra-senso que os momentos de uma só pessoa marquem o início de uma vida a dois?

Não que para os homens tudo seja indiferente, claro que não! Eles têm gosto e opinião, mas regra geral são muito mais simples, não se interessam com a cor dos guardanapos e nem das toalhas. Não fazem provas no cabeleireiro nem fazem questão de conhecer o pasteleiro.

A lista de convidados também me deixa intrigada, a facilidade com que se supera a fasquia da centena de pessoas é impressionante. E não poucas vezes chega-se às duas centenas ou mesmo três! Para quem se confessa socialmente inadaptada é perceptível que teria de correr a minha lista toda de contactos no telemóvel para conseguir estes números, talvez precisasse até de ir ao facebook buscar reforços.

Mas pessoas, sou só eu que acha estranho partilhar esse momento com metade da freguesia ou há por aí mais alguém a pensar que é coisa para merecer mais intimidade?

Sendo eu pessoa casada não é difícil adivinhar que não segui a cartilha mais usual. O ramo foi uma rosa, comprada horas antes, entregue em mãos à C., a pessoa responsável da Pousada onde casamos (reservada três meses antes) que escolheu a decoração, por sua conta e risco, e criou uma sala linda. O vestido foi idealizado e costurado pela T., uma costureira, mulher, amiga, a quem fui um mês antes, tão prática que me disse de imediato “vens no tempo certo, às vezes as noivas vêm um ano antes e eu digo logo para virem mais tarde, até lá ainda vão engordar ou emagrecer, até podem ficar prenhas”. O fotógrafo, um amigo e colega de trabalho, chegou depois da cerimónia, a lua de mel aconteceu três meses antes do casamento, e foi uma mulher a dizer “pode beijar a noiva”. Não houve convites, nem provas de cabelo ou maquiagem – foi sem rede, tal como é o casamento.

Casar nunca foi um sonho na minha vida, nem na do A., talvez por isso as expectativas não fossem muito altas e, no final, tenha sido mesmo um dia de sonho.

A verdade é que não é o dinheiro gasto que faz um dia feliz. 💑

Se ao menos soubessem…

Estava a ver uma reportagem no Jornal da Noite sobre a Linda de Suza, como chegou a França, com uma mão à frente e outra atrás, e mais um filho para criar, sem saber falar uma palavra de francês, sem dinheiro e sem trabalho, com uma única mala, de cartão. Faltam-me palavras para expressar a minha admiração por quem passou, e passa, situação igual. É muita coragem, é muita força, é muita fé.

Lembrei-me da Rosinha, minha formanda em 2000/2001. Pequenina, franzina, tinha um rosto marcado mais pela vida do que pelo tempo, mas uns olhos lindos, que continuavam bem abertos e iluminados, com um olhar pueril, sem qualquer marca da idade, com curiosidade para aprender e ver o mundo. Era de sorriso franco e fácil.

Lembro-me de termos uma conversa que me marcou profundamente. A Rosinha, de olhar arregalado, dizia-me que eu era muito batalhadora e inteligente, que me admirava muito por eu ser independente, trabalhar, ganhar o meu sustento e conduzir! Ahhh, conduzir era para ela a cereja em cima do bolo. Aos seus olhos eu tinha o mundo na mão, e mais importante, para ela eu estava à altura do mundo.

Vi nas suas palavras a projecção de sonhos adiados ad aeternum.

Perguntei-lhe se ela, emigrada em França tantos anos, não se sentia uma mulher de “raça” por ter vencido tantas dificuldades – imaginava-as eu. Disse-me que não, que quando chegou não sabia sequer uma palavra de francês, entendendo que isso lhe estaria em demérito, e que só foi para lá para acompanhar o marido, tinham casado há quase um ano. Quando chegou a França ia grávida de quase nove meses (!) do primeiro filho. Entrou em trabalho de parto em casa, sem saber bem o que lhe estava a acontecer, sem saber como ir ter ao trabalho do marido, sem telefone (nem era tempo de telemóveis), sem saber ir para o hospital. Foi na rua, no passeio, que alguém percebendo o que se passava a levou ao hospital mais próximo. E foi por dedução que, no fim do dia, o marido lá foi ter.

Trabalhou anos a fio, nas limpezas, criou três filhos e sonhava com o que podia, regressar para uma casa própria em Portugal.

Perguntei-lhe se não achava que era merecedora de admiração. Disse-me prontamente que não, que fez o que havia de ser feito, só isso. Tinha ido uma única vez ao cabeleireiro, no dia do seu casamento, nunca foi ao cinema, nunca foi ao teatro… Percebi-lhe o vazio na voz. Não seria do teatro ou do cinema ou mesmo do cabeleireiro que ela queria falar, era antes de nunca ter feito aquilo que ela queria de verdade, só ela. E era isso que ela acreditava ver em mim.

No fim perguntei-lhe se não sentia a falta de conhecer o cinema ou o teatro. Disse-me que não, que só sentimos falta do que conhecemos, do resto, quando muito, temos curiosidade.

Ainda hoje, tantos anos depois, lembro-me dela com uma admiração profunda. Adorava aprender, estava a fazer o equivalente ao sexto ano de escolaridade, estava perto dos 60 anos, e o seu sonho era o que podia, fazer o décimo segundo ano.

Perdi-lhe o rasto, não sei o que foi feito dela e nem ela saberá de mim. Mas torço para que tenha o diploma do secundário afixado na parede, e que tenha ido ao cabeleireiro quando o foi receber. Torço para que perceba que tudo aquilo que ela fez foi muito mais difícil do que conduzir um carro. Torço para que lhe tenham ensinado a grande diferença entre nós: ela fez o que havia de ser feito, eu fiz o que podia ter feito mas muito porque a minha Mamy, tal como a Rosinha, fez o que havia de ser feito.

Acima de tudo torço para que continue com o mesmo olhar de quem quer conhecer, desejo que só, metade do mundo. Da outra metade espero que sinta a falta. 🌍