Happy Birthday Nina.

Faz hoje 84 anos, onde quer que esteja. A maior parte dirá que já morreu, na verdade eternizou-se com uma coragem arrebatadora: “I’ll tell you what freedom is to me – no fear!”

Mulheres, se hoje somos mais livres também a ela o devemos.

Nina Simone, uma rebelde com causa, cantou o que sentiu “’cause i’m just a soul whose intentions are good. Oh Lord, please don’t let me be misunderstood”.

Numa das suas letras, e numa estranha coincidência com o dia de hoje, lembra-nos que o amor próprio é uma âncora da qual nunca devemos abrir mão “You’ve got to learn to leave the table when love’s no longer being served”. Um beijo no teu coração V.! 🎧

Steve Jobs.

Conheci o Steve Jobs num curso que fiz em 2008, sobre marketing no retalho. Até então só tinha conhecido a Apple e ele veio como o rosto por trás da marca.

Dele dizem ter sido um ser humano irascível, de humor duvidoso e dado a poucas simpatias.

Da sua história pouco é conhecido, e, para mim, dois marcos definem o principal: é dado para adopção (duas vezes) e, ainda assim, renega a sua primeira filha – Lisa. Talvez isto fosse o suficiente para justificar uma espécie de bipolaridade, sempre em mau.

Mas, para mim, Steve Jobs não foi só o homem, foi muito mais.

Foi aquele que soube ler o desejo, soube ver o futuro e soube colocar o mundo, literalmente, nas palmas das nossas mãos.

Aqueles que, como eu, cresceram sem computadores, sem telemóveis, com televisão ainda a preto e branco, alugaram vídeos em cassetes VHS, trabalharam com disquetes e acharam o walkman a última coca cola no deserto, seguramente percebem o que quero dizer.

Sim, eu sei que não foi ele o criador de tudo, e em bom rigor, diz-se que em produtos nunca criou nada. Mas ele sonhou com tudo!

Quando um rebanho de gente seguia um caminho, ele teve a audácia e a coragem de criar outro. Num mundo a preto e branco, Jobs foi uma paleta de cores com combinações improváveis. Sonhou como quis, fez acontecer e nunca se limitou pelo que era considerado impossível.

Sempre que ouço o texto “Here’s to the crazy ones” sinto um abraço, um porto seguro, um bálsamo, sinto paz. E ouço-o muitas vezes, especialmente quando tenho de tomar decisões importantes.

O discurso em Stanford é, a meu ver, toda uma obra literária, e de tamanho considerável, no campo da auto-ajuda. São 15 minutos de pura terapia para a vida. O dogma, a verdade, a vida, a paixão, as prisões, as amarras, a morte, está lá tudo, sem reticências ou pudores.

Que belo mantra o seu “stay hungry, stay foolish”. Nunca soube dizer-me tão bem. 🎨

Dalai Lama.

Li esta frase quando tinha trinta anos, mais coisa, menos coisa.

À época era protagonista de uma interessante carreira profissional, pelo menos a julgar pelo olhar dos que me rodeavam e a isso me convenciam, mesmo sem esforço.

No fundo creio que pressentia que não sabia o meu caminho, mas intuía que não era aquele. Tanto que a frase ecoou cá dentro, encontrou-se com uma alma inquieta, insatisfeita e fez todo o sentido, palavra por palavra. Escrevi-a num post-it e colei-o no monitor do meu computador, no trabalho.

Era das primeiras coisas que via todos os dias quando chegava, e em certos momentos olhava para ele e tentava contar até dez – confesso que poucas vezes funcionou, nunca fui muito boa a controlar a minha impulsividade. Mas ainda assim ajudava-me a perceber que, no fundo, não havia muito a perder, eu não queria aquela vida para sempre. Na verdade eu nem teria o sempre, como aliás ninguém tem!

Fiz questão de trazer o post-it quando ganhei coragem para me despedir – a decisão da qual mais me orgulho até hoje.

Não precisava dele para me lembrar da frase, mas queria guardá-lo para que nunca me esquecesse do que pensava e sentia quando estava todos os dias, durante anos, em frente a ele.

Vivi anos a achar que a minha realização profissional se traduzia em euros, e que esses euros me dariam o que a “infância queria comprar”, como diz a cantiga. O status que a sociedade nos oferece quando temos um cargo importante, quando moramos numa casa grande, quando vestimos roupas de marca, é impressionante. Dizem sermos pessoas de sucesso, e nós corremos o risco de achar o mesmo.

Mas sucesso é outra coisa. Sucesso é ser livre, é ter tempo para fazer o que gostamos com quem gostamos, é ter paz de espírito, é, antes de mais nada, ter amor próprio, é pensar pela própria cabeça. E, na minha infância, não me lembro de nada mais importante que eu quisesse comprar.

Desde o momento em que li a frase de Dalai Lama, pesquisei sobre ele, desenvolvi profunda admiração e curiosidade pela pessoa. Seria com certeza alguém que adoraria conhecer. Soube anos mais tarde, por interposta pessoa, que foi alguém que o meu pai adorou conhecer. Há coisas que não se explicam… 🎎

Carla, a gémea.

Nascemos ambas em 1976.

Não tenho ideia de nos conhecermos até entrarmos para a escola primária, não obstante sermos vizinhas.

Mas a nossa história começou muito antes, mesmo sem sabermos.

A Carla foi posta na minha vida pela mesma razão que eu fui posta na dela, para a discriminação ser suportável e para assim transformarmos a diferença que nos unia na nossa força maior: éramos (e somos) filhas da mãe!

O mesmo é dizer que os nossos pais se separaram quando só a ideia era tabu – mesmo que fosse em Lisboa, imaginem na nossa pequena aldeia.

Às nossas mães devem ter chamado de tudo, ou talvez não, talvez “santa” não tivesse sido uma opção.

O engraçado é que Deus não dorme, e mesmo sem pais presentes, as duas tivemos grandes mães, uns avós de se tirar o chapéu e uma professora primária muito à frente do seu tempo. Apesar do preconceito fomos crianças felizes, fortes e muito cúmplices.

Nunca alinhamos muito na versão dos outros, mas aos outros era conveniente alinharem na nossa versão sempre que queríamos, caso contrário criávamos as consequências – tínhamos (e temos) personalidade forte.

Éramos bem comportadas, excelentes alunas, muito determinadas e, sei-o hoje, muito fortes por sermos unidas. Sabíamos que uma tinha a outra de forma genuína e por inteiro.

Partilhamos tudo, até o amor pelo mesmo rapaz – o V. (e nós as duas podíamos gostar do mesmo rapaz).

Hoje, ser filho de pais divorciados é absolutamente banal, mas naquele tempo era um escândalo. Imagine-se que era motivo para que as outras professoras da nossa escola não nos quisessem nas visitas de estudo. E as crianças, que conseguem ser muito mázinhas (isso continua igual), perguntavam-nos porque não tínhamos pai, porque ele não gostava de nós… E nenhuma sabia respostas, aliás as duas fazíamos as mesmas perguntas.

Com seis, sete, oito anos, sentíamos coisas que não sabíamos sequer expressar em palavras. Por motivos diversos e quase inexplicáveis, estivemos trinta anos sem nos ver. E no dia em que os nossos olhares se voltaram a cruzar estava lá tudo, o que nunca soubemos dizer e o que somos uma para a outra.

Hoje voltei a vê-la, falamos da vida em trinta minutos. Agora, enquanto escrevo, dou por mim a pensar no que dizem sobre gémeos separados à nascença, que mesmo sem saberem um do outro, sentem-se e vivem as mesmas emoções. Neste caso, e sem o mesmo ADN, não podia ser mais verdade.

Li há uns anos que a verdadeira definição de amizade resumia-se a um tipo virar-se para o outro e confessar um crime, o ouvinte, atento, pergunta de imediato onde está o corpo. Quando confrontado com a pergunta “para quê?” a resposta só podia ser uma “para te ajudar a enterrá-lo”.

Era boa ideia nunca precisarmos de cavar um buraco a meio da noite, mas tenho para mim que se eu precisasse, tu estarias lá sem me perguntares nada e, principalmente, sem me julgares. Se fosse o contrário (evita lá isso, matar alguém é capaz de ser chato), e para que conste, eu faria o mesmo. 👭

António Variações.

Era uma adolescente quando me cruzei com a obra deste homem, não me lembro como aconteceu mas sei que nunca mais o esqueci.

Saído de Fiscal, uma aldeia em Braga, nos anos cinquenta, ainda rapaz, rumou para a “cidade grande”. Não se condicionou, conheceu o mundo, fez-se barbeiro, escreveu letras intemporais e criou música cujo estilo está, segundo o próprio, algures entre Braga e Nova Iorque.

Ainda hoje o ouço com o mesmo fascínio e a mesma admiração de outrora. Brutal visão do mundo e do ser humano, invulgar capacidade de a transmitir. Excentricidade e simplicidade num só corpo. Diz-se que morreu sozinho de amigos e afectos, parece que a única excepção foi a Lena D’Água. Partiu deste mundo sem ter tempo de conhecer a admiração que gera nas pessoas. Mas lá além, onde está também hoje, seguramente sentirá que deixou uma marca na eternidade.

 
ANTÓNIO VARIAÇÕES – ESTOU ALÉM
Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Florbela Espanca.

Conheci a obra de Florbela Espanca com quinze anos. Lembro-me de ler os poemas dela e de a imaginar, na sua dor, no seu amor. Despertou-me interesse e senti afinidade. As palavras dela ecoavam cá dentro, faziam sentido. Chorei muito enquanto a li.

Hoje, vinte e cinco anos depois, continuo a vê-la como uma mulher fascinante, cuja escrita me marca profundamente e cujas palavras entendo sempre.

Também eu tenho uma sede de infinito, talvez seja uma alma atormentada que tem saudade sei lá de quê…

Marta.

Sei que não é possível a vida devolver-te o que te tirou, mas peço-lhe que te reconheça, que te estime, pelo coração que tens e pelos valores que soubeste cultivar. Hoje recebi uma bonita prova de que ela está atenta! Quanto a mim, vou estar sempre aqui, de braços abertos e figas nos dedos. Um beijo no teu coração 👭