O que eu vejo na minha amiga Té.

Aqui há dias recebi um e-mail da Té cujo conteúdo versava sobre, no fim das contas, sermos aquilo que os outros veem de nós.

Pessoalmente acho a coisa mais complexa, tal como me ensinaram há vinte anos (e que tanto me custou aceitar na época!) entendo que somos o somatório daquilo que só nós conhecemos sobre nós mesmos, com aquilo que só os outros conhecem da nossa pessoa, mais aquilo que, quer nós, quer os outros, conhecemos sobre nós.

Aceitar que somos só o que os outros veem é aceitar que os outros são seres capazes de nos ver de forma despretensiosa, sem preconceitos, livre de estigmas e de julgamentos. É confiar que se preocupam em ver o melhor e o pior de nós, que não se ficam pelas aparências.

E eu não sou pessoa capaz de confiar assim nos outros. Só nos meus! E mesmo a esses reconheço-lhes limitações (que não poucas vezes partilho com eles).

A Té é uma das minhas pessoas, daquelas que quero perto, daquelas que mesmo quando não nos vemos durante muitos dias faz-me bem saber que existe e está a um e-mail de distância. Foi pessoa presente em momentos muito difíceis da minha vida, sempre com um abraço pronto. É pessoa que me diz na cara tudo o que preciso ouvir, sem se limitar porque os temas são desconfortáveis.

Conhecemo-nos por intermédio de outra pessoa, comum a ambas, em contexto profissional. De quando em vez a Té visitava, com os seus alunos, a fábrica onde trabalhávamos, como muitos outros docentes, e embora todos nos dirigissem palavras de agradecimento no final de cada visita, lembro-me que só no olhar da Té sentia gratidão pura pela disponibilidade que lhe dedicávamos.

Alguém que a conhece muito bem profissionalmente, há muitos anos, chama-a de rústica. Eu não puderia estar mais de acordo. A Té é rústica mesmo. Faz-me lembrar o tempo dos meus avós, quando os vizinhos vinham ajudar porque a minha avó adoeceu, quando a palavra dada era mais que escritura lavrada, quando na escola os intervalos eram a brincar na terra batida.

A Té é uma das pessoas mais livres que conheço! Ela acha o mesmo sobre mim, mas na verdade talvez eu seja a mais ousada, ela é a mais livre.

A Té não compactua com os caprichos da moda (que a sociedade permite ser tão espartana), não se impõe aos reconhecidos padrões de beleza (mais quilo, menos quilo, mais ruga, menos ruga, tanto lhe faz), não condiciona a sua mente a dogmas, não é de verdades absolutas, não alinha na receita “nascer, crescer, reproduzir, morrer”, não sonha em euros, não cede a consumismos, sente sentimentos (os de verdade) e pensa pensamentos (pensa mesmo, não os copia nem os vomita). É de uma autenticidade intensa e genuína. E é moça que investe de verdade na sua sabedoria.

Há quase vinte anos escolheu partilhar conhecimento com os outros. Trabalha duro para ser cada vez melhor. Entrega-se de verdade para que vejam nela alguém disponível para ajudar. Esforça-se para ser um trampolim para que todos os seus alunos possam chegar muito longe, no trabalho e na vida. Mas, ainda assim, um dia o ensino deixou de lhe trazer felicidade.

A maioria de nós talvez ficasse na mesma, continuava como Professora Doutora, fazia ainda mais Curriculum, insistia e nunca desistia de uma carreira para a qual trabalhava há quase duas décadas.

A maioria talvez, mas a Té é muito mais do que só isso, a Té quer muito mais do que só isso. A Té quer ser feliz!!!

Tem medos, muitos, mas mais importante, tem o inconformismo de não aceitar o “mesmismo”, e é daí que lhe vem a coragem para se fazer à vida. Mesmo que seja a fazer doces, que “só” são os melhores do mundo, têm fruta de verdade, pouco açúcar e muito amor!

Os limites da Té são única e exclusivamente os que ela inteligentemente cria ou criou. É que ela sabe que sem amarras há dias em que levantar vôo pode ser tentador, e ela conhece-se, sabe que é da terra, não é do ar. ❣

#Salvadorable.

Ganhou! E ganhou tudo o que queria ganhar. O reconhecimento pela bonita voz que tem, a consagração do talento da irmã como compositora, a divulgação da mensagem humanitária que conseguiu passar, a saúde para se manter distante da sua “base” por quase uma semana, a vitória da “música com conteúdo e sem fogo de artifício”.

Ahh, ganhou também o Festival da Eurovisão! Um momento único para Portugal. Importante e emocionante para um povo habituado a conformar-se com resultados mediocres. Mas acredito que para ele tenha sido um ganho colateral, afinal não enganou ninguém quando disse que nunca sequer viu o Festival da Canção.

A primeira vez que ouvi falar dele foi através de um post de Nuno Markl, jurado do Festival da Canção 2017, que respondia a todos aqueles (muitos!) que criticavam a vitória de uma música que nos iria fazer passar vergonhas lá fora. Lembro-me de ter lido o Markl e de ter pensado que cantor seria aquele, capaz de ganhar à Deolinda do The Voice, aquele portento de cantora.

Soube algures que o tal cantor chamava-se Salvador Sobral e era irmão da compositora da música, Luísa Sobral. Talvez por não apreciar muito a voz da Luisa e por nunca ter ouvido falar do Salvador, não liguei nenhuma à coisa. Além do mais desde miúda “sabia” que o Festival da Canção nunca seria ganho por Portugal, questões políticas e financeiras sempre justificaram as pontuações anteriores, e eu acreditei nelas ao ponto de achar que assim seria para a eternidade.

A dada altura fala-se muito se Salvador vai ou não estar presente em Kiev por questões de saúde, foi assim que fiquei a saber que tinha alguma doença complicada. Mas também não foi por isso que vi a edição dele no Alta Definição mais de cinco minutos, enquanto fazia zapping.

Até que… Portugal passa as semi-finais! Achei ainda mais interessante porque havia todo um burburinho na internet sobre o facto de estarmos no top cinco das casas de apostas.

Fui ao YouTube e, pela primeira vez, vi a actuação e conheci a música. Na altura não soube bem definir o que pensei, até que li algures a expressão “performance disney-jazz”, a meu ver assenta-lhe como uma luva. Quanto à música, tem a capacidade de se entranhar, e cada vez que a ouvimos parece entranhar-se ainda mais do que na vez anterior.

Não resisti a pesquisar mais sobre o Salvador. Vi vários videos e admirei cada um deles.

Raio de miúdo tão desengonçado quanto carismático, de boca solta e pensamento livre. Interveniente, inconveniente e consciente. De uma consciência tão pura, nua e crua que inquieta.

Depois da vitória os olhos dele esboçavam surpresa e contentamento, mas nunca esboçaram deslumbramento.

A dada altura sentiu-se-lhe o cansaço, como se a adrenalina tivesse ido embora assim que saiu do palco. A conferência de imprensa fazia parte do protocolo, mas ele não. Recusou o título de herói nacional e demonstrou uma lucidez extrema quando falou da efemeridade da fama. Mesmo sem estar a cantar, todo ele foi emoção, foi verdade, foi simplicidade.

Sem demérito para todo o trabalho da compositora, dos músicos, dos técnicos, foi, acima de tudo, a emoção, a verdade e a simplicidade quem ganhou o festival. E a humildade, a de uma irmã que, escrevendo uma obra de arte, não se apossou dela e a entregou ao seu irmão.

Já foi chamado de arrogante, desalinhado, inadaptado. Afinal o miúdo é ousado, isso sim! Ousou manter-se fiel a ele mesmo, sem nunca pretender pertencer à maioria, conquistar fama, votos ou apoios.

E agora, com a taça, é ver a maioria comportar-se como se ele tivesse sido nascido e criado no seu interior, vitoriosos por terem acreditado nele desde sempre, aplaudindo de pé e incentivado o petiz a cantar desde cedo. Exactamente os mesmos que se insurgiram porque a música não tinha nada para dar ao Festival da Eurovisão, porque não era politicamente correcto falar e defender os refugiados, porque ele tinha tiques estranhos quando actuava e parecia drogado.

Senti uma emoção do caraças ontem. Sempre que Portugal recebia doze pontos inchava de orgulho. Quando acabaram as votações quase chorei. Mas a vitória não foi minha, nem da maioria, nem de Portugal, foi de uma equipa que trabalhou e acreditou que ia fazer bonito.

No final fui ao facebook ver o perfil do Nuno Markl, procurava a sua resposta a todos os que o haviam insultado dois meses antes, procurava o seu próprio ajuste de contas, a sua limpeza de fígado. Encontrei uma das melhores citação da noite “O que está a acontecer na Eurovisão é bonito, pá.”. Estava tudo dito, até porque não era preciso mais.

Nesta edição da Eurovisão o lema era “celebrar a diversidade”. O vencedor esteve à altura. E fez história. Vai ser sempre recordado como aquele que, mesmo com limitações no seu coração, soube amar pelos dois e encantar milhões. 👏

RAP, uma história de humor.

Desde miúda que estremeço quando alguém quer contar anedotas. D-E-T-E-S-T-O!

A consciência de que é suposto rir para que a outra pessoa se sinta confortável é meio caminho andado para me sentir desconfortável.

Mas, curiosamente, é no humor que encontro uma terapia sensacional! Seja uma gargalhada ou um sorriso genuíno, deixam-me mentalmente mais leve, com uma sensação de que a vida é mais fácil.

Existem dois ingredientes fundamentais para me fazer rir, a espontaneidade e a inteligência na desconstrução. Normalmente a espontaneidade arranca as gargalhadas mais sonoras (e estridentes). A inteligência na desconstrução, seja de verdades, de politicamente correctos, de estigmas ou paradigmas, é responsável por sorrisos recheados de admiração.

Existem pessoas cuja maneira de ser (ou de estar profissionalmente) admiro tanto que sou capaz de as ver e ouvir horas seguidas, e não poucas vezes, o meu ponto de vista é discordante do delas. Mas é isso que me fascina, a capacidade que têm de me fazer ver as coisas sobre outro prisma; a ousadia de me fazerem rir com assuntos sérios e a inteligência de verem o oposto do normal.

Dentre vários há um nome que, para mim, é uma constante. E por falar em humor e desconstrução, o único que fez capa da Playboy e vestido – Ricardo Araújo Pereira.

Quando normalmente nos dividimos entre aqueles que veem o copo meio cheio e o copo meio vazio, é um elixir de juventude testemunhar os que veem o copo virado para baixo. É que muitas vezes a vida só faz sentido de pernas ao alto. 😹

A minha tia J.

A minha tia J. foi uma das mulheres que mais me marcou na vida.

Ainda hoje, quando penso nela, sinto aqui um desassossego com Deus, não fez sentido o modo como partiu, tão cedo.

A J. era minha tia por casamento, quando eu cheguei ao mundo já ela tinha chegado à família. Eu vim a seguir ao primeiro dos netos, o meu primo P., seu filho com o meu tio Z..

Lembro-me dela muitas vezes. De toda uma vida fielmente dedicada ao trabalho e à família.

Tinha uma capacidade única de se entregar na alma de todas as prendas que me deu, que tanto me marcaram. Nunca foram só para marcar uma data, foram sempre para marcar uma etapa, uma emoção, para criar memórias. Como quem adivinha que vai embora cedo e quer deixar na memória dos seus a sua lembrança perpetuada.

Sendo do Minho o ouro fazia parte da sua vida, era o seu pequeno luxo. Tinha bastante, comprado com muito suor e sempre aos bocadinhos. Foi das suas mãos que recebi as primeiras contas para fazer o meu colar.

Lembro-me até hoje da alegria com que me telefonou a dizer que eu tinha ganho o cartão de uma ourivesaria onde éramos clientes. Não sei se teria ficado mais contente se fosse para ela.

A minha tia J. deu-me os meus primeiros soutiens, lindos, femininos, e no meu tamanho à data –  o que foi surpreendente porque ela não tinha nenhuma pista por onde adivinhar. Receber esse presente foi coisa “de mulher para mulher”. Fez-me sentir crescida! Ainda hoje os guardo com muito carinho.

Teve dois filhos homens, muito diferentes entre si, o P. e o V.. Eram o seu mundo, o seu maior orgulho. Tinha um gato, grande e lindo, muito bem tratado. E o meu tio, o seu Z., sempre muito paparicado.

A minha tia J. trabalhava numa pastelaria, entrava com o nascer do Sol e muitas vezes ao sair já estava a Lua. No inverno, entrava de noite e saía à noite, via o dia enquanto atendia a sua gente. Na Páscoa e no Natal aquela mulher trabalhava que não tinha explicação. E nunca a ouvi queixar-se.

Não havia quem não a conhecesse, quem não gostasse dela. Tinha uma figura cuidada, sempre de cabelo arranjado, não se maquiava, mas tinha uns belos olhos azuis, que em conjunto com um doce e franco sorriso, lhe emolduravam o rosto.

Quando a visitava na pastelaria enchia-me de docinhos. No Verão, dava-me sempre um gelado artesanal de cone que lá faziam – esses sim, os melhores do mundo.

Era uma pessoa de afectos. Alegre, enérgica e sem papas na língua.

Hoje, mulher que sou, já quarentona, o que acho mais impressionante era o facto dela estar sempre presente e, ao mesmo tempo, sempre a trabalhar. Não sei como o fazia, onde arranjava o tempo e a energia.

Só folgava um dia por semana, aos Domingos, mas tinha sempre a sua casa arrumada, com tudo limpo e nos sítios, era uma cozinheira de mão cheia, garantia todas as refeições para a família, tratava da roupa de todos, estavam sempre impecáveis. Enquanto a minha avó era viva, já acamada, visitavam-na todas as semanas e levava-lhe bolinhos para lhe adoçar a alma.

No seu dia de folga adorava receber a família e os amigos, com mesa farta, abraço apertado, voz alta e fala rápida. Sempre preocupada a ver se estavam todos bem, se não faltava nada na mesa, se todos estavam a comer.

A última lembrança física que tenho dela, foi quando, já doente com cancro, e em vésperas da sua operação, organizou uma festa de anos para o meu tio. Dizia que podia ser a última e não queria que fosse triste, nem que lhe faltasse nada. Juntou muitos, de sangue e da vida. Cozinhou, decorou, arrumou, limpou, amou.

Amou muito, toda a vida, e eu guardo a sensação de que amou mais do que foi amada. Talvez porque aquele que sabe dar por excelência, não sabe ser excelente a receber. Talvez porque ninguém imaginasse que ela fosse embora tão cedo. Talvez porque, mesmo se pudéssemos voltar atrás, a vida não deixasse fazer melhor.

Os seus filhos são a prova viva da mãe que ela foi, e não conhecer fisicamente as netas é uma privação que nunca vou entender. Que avó seria meu Deus… A B., a M., a M., esta última ainda a caminho, nunca vão perceber o amor que lhes estava guardado. Mas ela, lá de cima onde as vê, tenho a certeza que desce muito vezes para as amparar, para as mimar. Sei-o porque não se dava quieta no mesmo sítio, e porque nunca deixava que faltasse nada aos dela, muito menos amor.

O seu colo faz-me falta.

No dia do seu funeral não acompanhei o caixão até à sepultura, fiquei perto da entrada do cemitério. Onze anos depois, contrariando a minha natureza, fui procurar a sua última morada, queria vê-la. Creio que nunca mais voltei a entrar naquele cemitério desde o seu funeral. O seu colo estava à minha espera. Foi como se me guiasse porque, impressionantemente, eu fui ter com ela direitinha. Ao chamado do amor, nem a morte a impede de nos mimar. ❤️

Sou do tempo de Ayrton Senna.

Sou do tempo em que as tardes de domingo começavam, indiscutivelmente, a assistir Fórmula 1.

A picardia entre Senna e Prost alimentava toda a corrida. Sempre torci pelo brasileiro, ferrenha!

Senna nasceu para vencer, e vendo bem, não faria sentido morrer de outra forma.

Era um desportista carismático, perseverante, teimoso, focado, dava tudo o que tinha na pista. A adrenalina vencia-lhe o medo.

Soube correr intensamente, com polêmica e com o seu jeito rebelde. Fez da Fórmula 1 um desporto do povo, onde metade do Mundo vestia verde e amarelo.

Depois da sua morte nunca mais vi Fórmula 1, e as notícias que conheci sobre o desporto fizeram-me crer que tinha voltado para as elites.

Senna foi isso mesmo, o homem que não ficou famoso com a Fórmula 1, mas antes o homem que fez famosa a Fórmula 1. Fez com que fosse seguida, torcida e vivida de forma entusiasta, por milhões de pessoas, como nunca mais o foi. A alma deste desporto ficou no circuito de Ímola, em 1994.

Já Senna vive até hoje, com prémios e mais prémios arrecadados, mesmo depois da sua morte. É considerado o melhor piloto da história da Fórmula 1 de todos os tempos, o desportista do século XX no Brasil. Mais de vinte anos depois da sua morte continua ser um dos maiores ídolos do Brasil e do Mundo.

Dia 21 de Março de 2017. Parabéns pelos teus 57 anos.

Que a via láctea seja a estrada para ti. E que nunca percas a pole-position! 🏁

Eduardo, o terceiro e o “meu” Eduardo.

De todos os Eduardos este é o único que conheço pessoalmente, e de todos foi aquele que mais me mudou.

O Eduardo foi meu colega de trabalho. Falaram-me da sua perda provavelmente no dia em que o conheci. Poucos anos antes tinha perdido o seu único filho, o seu melhor amigo, o seu maior amor. Mas não foi assim que o Eduardo conquistou a minha admiração. A sua perda fez-me apenas sentir empatia por uma pessoa de quem, praticamente, só conhecia o exterior.

À data, as minhas funções eram de gestão sobre funcionários e procedimentos, contas e outras operações. Meti mãos à obra, estava focada. Queria inteirar-me de tudo, começar o quanto antes. Queria resultados. Queria ver acontecer.

Cedo percebi que o capital humano não era empreendedor, deixava a desejar no profissionalismo, tinha vícios e pouca determinação.  Como sempre e em todo o lado, havia os irrecuperáveis e os recuperáveis. O Eduardo, a meu ver, estava no lado dos irrecuperáveis.

Quando os nossos olhos vêem oportunidades, temos dificuldade em perceber a falta de entusiasmo dos outros.

Trabalhei muito, com afinco. Mudamos muita coisa, implementamos regras e procedimentos. Mas na verdade o que nunca conseguirei fazer, por muito que tente, é mudar mentalidades.

O tempo ensinou-me quais as mentalidades que deviam ser mudadas. Sem grande surpresa, e como habitual, as do topo da cadeia.

O Eduardo ensinou-me que não era irrecuperável, só que também não conseguia mudar mentalidades. Viu muito antes o que eu vi depois, que o homem do leme não tinha rumo nem prumo.

Profissionalmente eu acreditava em suar a camisola, em arregaçar as mangas, em fazer o que ainda não tinha sido feito. Quanto mais difícil o desafio mais aliciante o achava. Quanto mais energia me consumia mais fascinada eu ficava. Só precisava de acreditar e de admirar aqueles para quem o fazia.

O Eduardo fez-me reconhecer que essa forma extremada de viver a minha profissão servia para me cansar, para que não tivesse tempo para analisar a minha insatisfação, o meu inconformismo. Para não mudar o que quer que tivesse de ser mudado na minha vida pessoal.

O Eduardo fez-me olhar para mim e perceber que ao contrário dele, quando me desiludo eu opto por mudar, ele fica. Mas só porque tenho menos inteligência emocional para lidar com a falta de caráter, com a falta de admiração pelos pares, pela desmotivação generalizada de trabalhar um mês para receber um ordenado. Ele não.

Ele tem a sensatez de ouvir só o que quer, de dar o seu silêncio a quem não merece as suas palavras, de continuar dia após dia, na dele, porque para ele e para a sua “Mariquinhas” a vida é outra coisa. No trabalho tem os seus dias, mas no geral aguenta-se bem. Aprendeu a não trocar um mês de trabalho por dinheiro, troca-o sim por memórias, de passeios que fazem sempre que podem, de petiscos e copos que alimentam o corpo e a alma. Parecendo que não, faz muita diferença. No fim leva-se apenas o que se viveu.👼

Eduardo Marinho.

Conheci Eduardo Marinho através de uma partilha da Marta Gautier. Tratava-se de uma participação dele no TedX e eu fiquei “de cara” como dizem os nossos irmãos brasileiros – por sinal a nacionalidade deste Eduardo.

Ouvi-lo falar é um misto de poesia, loucura, sonho e liberdade.

Eduardo nasceu numa família da média-alta sociedade brasileira. Cedo se questionou sobre o porquê de ele ter tudo e a maior parte não ter nada.

Nunca se conformou com isso, e nenhuma escolha que a família lhe autorizava o ajudava a encontrar o sentido para a sua vida. Com dezoito anos, depois de uma chantagem familiar, tomou a decisão e optou por não ter nada.

Vive a vida como quer, aprecia cada momento, faz o necessário para ganhar o suficiente, só para ter o básico.

É um homem extremamente culto, informado sobre a actualidade, com os pés na terra. É contra o sistema, é politicamente incorrecto, e o que diz não tem como ser mais correcto. É acutilante, não deixa nada por dizer.

“A sabotagem do ensino, a desinformação, a narcotização pelas mídias e a violência contra os pobres de grana são planejadas, comandadas, executadas e consentidas pelos pobres de espírito.”

Não tendo nada, é um homem rico. Em tempo, em histórias, na coragem, na ousadia, na inteligência, na sensatez e na sua sana loucura.

Este ano Eduardo comemora 57 anos e não tem dúvidas sobre ter sido na rua que encontrou o sentido da sua vida, resumido em duas palavras, é observar e absorver. 👣

Eduardo Galeano, o primeiro dos três.

Apesar de gostar de Eduardo, nunca foi nome que me dissesse nada de especial. Não tive nenhum amigo com esse nome, nenhum namorico, nem nunca o considerei para baptizar um filho.

Há alguns meses dei por mim a pensar na curiosidade de ter três Eduardos na minha vida. Cada um deles, à sua maneira, marcou-me, acrescentou-me conhecimento, enriqueceu-me a alma e fez de mim uma mulher melhor.

Hoje falo-vos do primeiro que conheci, por intermédio de um vídeo que a minha amiga T. me enviou.

Nesse vídeo, um jornalista espanhol entrevistava Galeano, jornalista e escritor uruguaio. Falavam das greves e revoluções que se viviam em Espanha por altura da crise financeira mundial, do seu impacto no Euro e na qualidade de vida dos espanhóis. Nas praças aglomeravam-se pessoas sem medo a lutar pelas suas conquistas, gritavam a plenos pulmões “se não nos deixarem sonhar, não vos deixaremos dormir”.

Galeano era um deles. Apesar de uruguaio, tinha uma relação próxima com Espanha, foi lá (e na Argentina) que se exilou por 12 anos, quando, após a vitória da ditadura pelo golpe militar no seu país, foi preso e viu o seu nome na lista do esquadrão da morte. Sobre esse período havia de ficar famosa uma das suas muitas citações: “As pessoas estavam na cadeia para que os presos pudessem ser livres”.

Em 2011, chegou a estar na linha da frente, ladeado por espanhóis, como muitas vezes esteve em outros países, com outros povos e outras culturas. Dizia que ali se vivia vitamina E, de Entusiasmo. Tudo porque acreditava que só o povo unido, independente de raças ou credos, poderia mudar o sentido hipócrita e interesseiro que o mundo enfrenta. Onde meia dúzia de pessoas detém o poder e o dinheiro, criam leis a seu favor, desrespeitam direitos e igualdades, privam a maioria de acessos básicos como uma educação conveniente, para que dessa forma predomine a cultura mediana e os mesmos de sempre não tenham concorrência à altura, nem à sua frente quem os enfrente.

“O que são as pessoas de carne e osso? Para os mais notórios economistas, números. Para os mais poderosos banqueiros, devedores. Para os mais influentes tecnocratas, incômodos. E para os mais exitosos políticos, votos.”

Conheceu o sucesso, viu as suas obras publicadas em dezenas de países e nunca se resignou nem trocou as suas convicções. Lutou contra a ditadura, era politicamente incorrecto e um homem sem medo. Acreditava na essência muito mais do que na aparência. Talvez por isso, num gesto genuíno e sofrido, três anos antes de morrer, ao chorar a perda do seu fiel amigo e companheiro, Morgan, a tenha considerado um duro golpe na sua vida, já por si tão repleta de tantas outras histórias que podia contar.

Falar de Galeano é um convite à abertura de espírito, à evolução humana, à rebeldia com causa.

Deixou este mundo em 2015, mas será eterno enquanto a utopia nos fizer falta para caminhar. 🏃

MCC, vem aí mais uma!

Depois de ontem ter aqui declarado o meu amor à Marta, hoje faço-o à Sónia e ao Ricardo.

O Ricardo é meu primo de sangue, o mais próximo dos meus primos, desde miúdos. A Sónia, mulher do Ricardo, é minha prima do coração.

Se há casal que admiro pela forma como se relacionam são eles. Os feitios encaixam como uma luva. Não são perfeitos, seguramente, mas aos meus olhos estão lá perto. E sei porquê, porque são exactamente aquilo que são, sem qualquer disfarce ou pretensão.

Ambos são pessoas bem formadas, com horizontes amplos, mente aberta.

A Sónia tem uma forma muito peculiar de ver a vida, que eu ADORO, não sofre por antecipação, tem muita inteligência emocional, surpreende-se e surpreende-me porque a vida é “só” a vida, sem dramas nem estresses.

É fácil perceber o porquê do Ricardo se ter apaixonado por ela. Para além de tudo é linda, parecida com a Angelina Jolie!

Também fica fácil perceber a paixão da Sónia pelo Ricardo. É um homem de afectos, sem qualquer problema em o demonstrar. Acredito que a sua roupa preferida seja uma t-shirt (dispensável em dia quente), calções e chinelos. Tem uma capacidade empreendedora nata, arregaça as mangas para criar um projecto emblemático na nossa cidade com a mesma vontade, simplicidade e sorriso, com que arregaça as mangas para inventar alterações no jardim lá de casa.

A cumplicidade, o amor e a amizade deram origem a uma das mais belas meninas que já vi, a única que visitei na maternidade. Uma rufia charmosa, a MCC.

Hoje recebi a notícia do dia, da semana, do mês, e só não é a do ano, porque em Julho será ainda melhor. Vem aí uma mana para a MCC.

Quero muito ser uma prima menos desnaturada. Este meu projecto de ser mais emoção e menos razão também inclui passar mais tempo com aqueles que amo, não só os de pêlo, mas também os de pele.

Meíco, não podias pedir muito mais a Deus! ❤️

Happy Birthday Marta.

Hoje faz anos uma das pessoas mais especiais da minha vida, a minha irmã de coração.

A quantidade de afinidades que temos é muita, tanta que me faz sentir por ela um amor protector.

Trocamos confidências, conselhos e sentimentos.

Torço pela felicidade dela, genuinamente.

Quero que saiba que estou aqui.

A vida não tem sido fácil para ela. O mais duro dos golpes foi há pouco tempo, ainda arde muito, o sufoco é grande.

E vai ser sempre. Eu sei-o e ela também. Podem passar anos e mais anos, nunca vão haver palavras ou berros que sejam suficientes.

Sei a prenda que lhe vou dar, espero que goste e que a faça sorrir sempre que a vir.

Vou fazer o meu melhor para que lá dentro caiba isto tudo:

* gostava que soubesses ocupar sempre o primeiro lugar na tua vida.

* gostava que sentisses a liberdade de seres feliz.

* gostava que entendesses que no amor vais estar ainda mais perto do que na dor.

* Mãe é amor maior! É colo, é ninho, é porto seguro. Por isso, nota à redacção, o teu sorriso é o sorriso dela, a tua lágrima será a lágrima dela. 👭