Laura, Lady Laura.

Lady Laura, Laurinha, Láu, Lalau, Ratita, Ervilhinha, Coxinha de Darque. Uma das peludas que eu vi nascer, a última dos quatro.

A Laurinha é cativante, sedutora, dengosa, meiga, linda, amorosa! Tem um olhar apaixonado e apaixonante!

De todos foi a que nos pregou os maiores sustos.

O primeiro foi uma noite e um dia fora de casa. Corremos todas as redondezas e nada, o meu coração estava apertado, não fazia ideia de como a poderíamos encontrar. Foi com os berros da avó que ela ganhou coragem de miar e o pai foi a correr na sua direcção. Veio ao seu colo, agarrada e com o coração a bater forte.

A história repetiu-se dali a uns tempos, dessa vez também esteve fora uma noite, foi dormir na casa de uma vizinha, mas decidiu não contar nada a ninguém. A avó descobriu-a e deu-lhe colo no regresso a casa.

Há quase um ano o comportamento dela mudou, ficou mais parada, menos brincalhona, com o olhar ligeiramente mais distante, vomitava com frequência. O diagnóstico não foi fácil de fazer (e foi feito graças à persistência da avó) e também não foi fácil de encaixar. Tinha cálculos renais a entupir o uréter e corria risco de vida.

Nessa noite eu nem sabia pensar. Mas Deus dá-nos anjos disfarçados de amigos e foi a T. quem nos deu a mão. Fomos directos para um hospital e a nossa menina foi operada de urgência.

Conquistou médicos e enfermeiros (e que equipa fantástica!). Apesar das dores, espalhou charme e fez muitas amizades.

A recuperação foi um sucesso (também com os mimos da equipa de Viana) mas tornou-se insuficiente renal e, como tal, tem predisposição para infecções urinárias.

Nos últimos meses esteve estável, feliz, meiga e brincalhona.

Esta semana voltou a ter sintomas de dor. O pânico voltou. Em 48 horas estavam feitos todos os exames,  o diagnóstico foi o melhor possível, é “só” mais uma infecção urinária.

O amor que vejo no olhar dela, aquele mio, as turras, o morder as unhas, o dormir achicharrada… Indescritível!

Diz-se e, é verdade, ser mãe é viver com o coração fora do peito. O meu deve estar de mão dada com o coração do pai, que é o melhor do mundo! 💕

27 de Janeiro.

Aparentemente não publiquei no dia 27 de Janeiro. Já passa das 00:00. Mas a verdade é que aqui estou e com o coração cheio.

Adormeci com o cansaço das últimas 48 horas, por isso não cheguei a tempo. Mas estivemos na hora certa onde mais fazíamos falta, certo A.? ❤️

Crer em ler.

minha mãe é a grande responsável por cultivar em mim o hábito da leitura.

Em criança oferecia-me muitos livros. Recordo com especial carinho uma colecção da Condessa de Ségur (e outros autores) do Círculo de Leitores, ainda hoje a tenho. Saía um livro por mês, e eu lia cada história como se não houvesse mais nenhuma. Também adorava os livros de “Uma aventura…” que trocava com os meus primos, esses apareceram uns anos mais tarde.

Eu era filha única, e por isso as personagens e as suas histórias faziam-me companhia diária, eram os meus amigos imaginários.

Na adolescência cruzei-me com vários livros. Acho que os que mais me marcaram, pelo menos são os primeiros que me passam pela cabeça, foram: os Sonetos da Florbela Espanca, Os Bichos de Miguel Torga e Os Meus Problemas de Miguel Esteves Cardoso.

Comecei a ler muito cedo, ainda antes da escola primária, obra do meu tio A. que me ensinou pacientemente com livros do Patinhas.

Nunca imaginei parar de ler, fazia parte de mim, mas a verdade é que anos mais tarde, a leitura começou a rarear. Não deixei de gostar, pelo contrário, mas era como se os livros perdessem a capacidade de me teletransportar para o seu interior.

Hoje sei que eu é que perdi a capacidade de me concentrar no livro, de me abstrair do meu dia a dia e de sonhar com as histórias. Levava tudo muito a sério, e em bom rigor ainda hoje o faço – mas mais sério tem sido o esforço que tenho feito para contrariar esta tendência.

O curioso é que mesmo sem o hábito da leitura, os livros sempre foram objectos do meu desejo e por isso sempre continuei a comprá-los.

Ontem a T. ofereceu-me um livro. Como um dos meus desejos para este ano é ler um livro por mês, este será o meu livro de Janeiro. Mas não estou certa se será este que me fará sonhar, creio que terá antes um efeito catártico. O título é sugestivo “Famílias e como sobreviver com elas”. 📖

A dor e a fé.

Hoje, na fisioterapia, enquanto fazia o tratamento, ouvia a conversa de duas senhoras na cabine ao lado.

Falavam de uma terceira pessoa, uma conhecida de ambas a quem acabou de ser diagnosticado cancro no útero.

Falaram sobre os pormenores da doença, contacto de médicos especializados, trocaram testemunhos felizes de outras pessoas conhecidas que passaram pelo mesmo, confidenciavam uma espécie de crise matrimonial que a doente já estava a viver antes do diagnóstico.

Durante quase uma hora ouvi um rol de informações tal que, a dada altura, quase acreditei que já conhecia a pessoa.

Mas o que me captou a atenção de verdade foi o diagnóstico que ambas fizeram à doente quando uma delas segredou que ela não era uma mulher de fé.

Não a julgaram e nem defenderam que por isso merecia uma espécie de castigo. Apenas reconheceram que todo o processo de tratamento seria duplamente mais difícil, e o sucesso mais dificultado. Eu, mesmo com o ruído da pressoterapia, ouvi os meus pensamentos a concordarem com as minhas vizinhas.

Sou uma mulher de fé, acredito no Deus que criou o Homem – não no Deus que o Homem criou, mas sinto que há muito mais para além disto.

Acredito que lá em cima as nossas estrelas nos guiam o caminho, nos aquecem o coração. A saudade dói demais quando deixamos de estar na mesma dimensão, mas ainda assim estamos perto, muito perto. Sinto a minha avó desde o dia em que a perdi, há 31 anos, mesmo chorando quase todos os dias a saudade da sua voz, do seu colo e do seu cheiro.

Há quem defenda que aqueles que não têm fé são mais pragmáticos, sentem que ou é agora ou não há nada a fazer depois. Alegadamente vivem um dia de cada vez e sabem que um deles é o último. Dizem alguns que são mais felizes, mais leves e despegados.

Acredito que sem fé seja mais fácil de nos sentirmos desprendidos, mas com certeza estaremos mais perdidos.

Para mim a fé não é uma opção, é uma benção. A minha fé prova-se no nome Diena. E, rais me parta, se há amor maior do que este, que atravessa o tempo e a dimensão, sobrevive à falta do toque, do cheiro, do olhar.

Com fé ou sem fé todos iremos morrer um dia.

A diferença é que eu sei que os braços da minha avó estarão abertos à minha espera. O mio e o ronron da Putcha, do Botinha, da Zebra, do Quito, todos à minha volta. O meu avô a olhar para a sua menina. Julgo que até o meu pai estará à minha espera para conversar o que nunca tivemos oportunidade. Ahhhh, e a minha tia J., com certeza lá estará para me por a par das novidades enquanto me bate no braço à medida que vai falando.

Há momentos, muito raros, onde admito que poderia duvidar da minha conviccão, mas nem aí dá, o anjinho Guidinho não deixa! 👼

Nunca digas nunca.

Se há vinte anos me dissessem que um dia ia casar, duvidaria muito e com muita força.

Se há dez anos me dissessem que um dia seria feliz por ter a minha casa arrumada, eu perguntaria se tinham mesmo a certeza de ser arrumada por mim.

Se há um ano me dissessem que eu iria entusiasmar-me com a elaboração de receitas variadas e com os elogios das minhas cobaias, eu nem duvidava, eu nem perguntava, eu seguramente saberia que estariam todos doidos! 🏡

McDonald’s e os pesos na consciência.

Hoje, ao início da tarde, acabadinha de acordar, ainda sem almoçar e com o estômago a apertar, vejo uma imagem linda e deliciosa à minha frente. O meu marido irrompe portas adentro com dois sacos do McDonald’s numa mão e as bebidas na outra. Senti os meus olhos a esbugalhar e, muito provavelmente, ficaram do tamanho de duas nozes.

Comi deliciada. O paladar do hambúrguer era o habitual mas o prazer foi muito maior. É que, como não tive tempo para processar a informação e assumir a decisão de comer algo que engorda, fui simplesmente apreciando o sabor sem qualquer tipo de peso na consciência. Suponho que seja assim que uma criança se sinta, sem os pensamentos viciados no medo das consequências e os juízos habituais dos adultos. 🍔

Quão irracional o raciocínio.

Hoje, ao ver o discurso de despedida de Obama, fui assolada por um pensamento meu “habitué”. Como raio é possível o ser humano não ver o que se passa diante dos seus olhos? Como consegue ignorar o óbvio?

Eu não sou fã de Hilary Clinton, acho-a uma mulher pouco carismática e, principalmente, pouco clara, ainda que lhe reconheça inteligência e perseverança. Contudo, juro, nunca imaginei que pudesse perder as eleições presidenciais americanas. Aliás eu nem percebi como Trump conseguiu sequer chegar a seu adversário. Não o acho um perfeito anormal enquanto empresário, até porque não sou entendida o suficiente na sua história, mas dizem ter sido bem sucedido. Agora, político?? E, principalmente, para o lugar mais importante no palco da política mundial?? Temo por nós, arrogância e estupidez juntas não são uma boa combinação, nunca foram.

A minha questão é, depois de oito anos habituados a um líder carismático, inteligente, que trabalhou contra a homofobia, o machismo, o racismo e outras discriminações, que fez pela paz, que lutou contra as armas, que foi pela união, que se preocupou com a saúde dos que menos podem, “comóraio” podem ver algo de válido naquele acéfalo? E o pior, ele nem disfarçou na campanha, disse sempre as suas ideias e demonstrou o seu carácter (no caso a falta dele).

E, quase sem ar, pergunto, como é que nós mulheres lhe pudemos dar um voto de confiança?? A um machista que trata as mulheres como objectos descartáveis, que servem para a obtenção do prazer masculino e pouco mais.

Porra, estamos no século XXI. Que facada na humanidade!

Mas assim é em muitas outras situações na vida, e isso intriga-me até às entranhas, e nem sempre na proporção das consequências. Aquele namorado que estava bom de ver que ia dar merda, com quem não tínhamos sequer afinidade; aquela peça de roupa que compramos e no fundo, no fundo, sabíamos desde o início que nunca a íamos vestir; aquele último copo de vinho, quando já estávamos no limite, e que para além de bêbados ainda nos deixou indispostos; aquelas últimas garfadas de comida, quando já estávamos quase a abarrotar, e que, obviamente, nos levaram quase à indigestão. E tantas outras! Ahhhhh, e a, sempre na moda, rejeição à mudança: “ahhhh, da maneira antiga isto faz-se melhor” – dá pelo menos para experimentar a maneira nova antes de falar???!!!

Quando penso neste tema do “irracional” lembro-me quase sempre de um exemplo sem importância para mim ou mesmo para a humanidade, lembro-me do Príncipe Carlos casado com Diana de Gales, linda, perfeita, elegante, doce, e no entanto…  apaixonado por Camila. Mas neste caso sempre se pode dizer que o coração tem razões que até a própria razão desconhece.

Quanto ao resto, talvez a razão conheça mas eu estou a anos luz de conseguir explicar tanta estupidez. 🙈

Calma na alma.

Sempre tive dificuldade em pensar no vazio, no nada. Sou das que olha sem ver e fala sem ouvir. A ansiedade tira-me a paz e embrulha-a em mau feitio com resposta pronta e afiada. Corro pelo tempo, possivelmente para não o sentir passar. E por graça, nem sei correr, não consigo coordenar movimentos e respiração.

Com esta experiência que tenho vivido, a de ter todo o tempo do mundo para não fazer nada, tenho percebido que tudo tem mais conteúdo. Há muito para ver, para (re)conhecer, para saborear, para pensar. Hoje, ao andar nas ruas da minha cidade, nas mesmas de sempre, tive a sensação de que estava a ver em 3D o que antes via em 2D. Engraçado quando a meio da vida percebemos que na outra metade éramos outra. 🌻