Oh captain, my captain…

Se a memória não me atraiçoa, o primeiro filme que fui ver ao cinema foi de desenhos animados (não me recordo do nome). Tenho ideia que havia borboletas e que uma magoou-se na asa. Não sei se chorei, mas lembro-me que tive vontade. Fui com a minha mamy e com o N., suponho que numa tarde de sábado ou domingo.

O cinema era num edifício independente, não ficava dentro de shoppings como agora. Lembro-me que tinha uma bilheteira no exterior, uma única sala, que eu achei enorme e, mesmo na sua entrada, havia um bar com muitas gulodices no balcão.

O “Clube dos Poetas Mortos” foi, a julgar pela minha memória, o segundo filme que fui ver ao cinema, mas desta vez com a minha turma do quinto ou do sexto ano, não sei bem. Sei que foi a pretexto da disciplina de inglês, e estou quase certa que foi numa sexta feira à noite.

Vi o filme atentamente, senti emoções incríveis, nunca mais esqueci a expressão “carpe diem”. Mas se houve momento que me tocou foi quando, à saída do professor, por este ter sido expulso, os alunos sobem para as mesas e começam a declamar “Oh captain, my captain”.

Já voltei a ver o filme dezenas de vezes. Com o passar dos anos o meu olhar sobre a história tornou-se mais profundo e mais filosófico.

Mas o momento que mais me emociona continua a ser exactamente o mesmo. E, acreditem, desconfio que pelos mesmíssimos motivos que há quase trinta anos atrás!

Sempre senti que aquela cena era repleta de coragem, admiração e ousadia: um professor que ousava fazer com que os alunos pensassem pela sua cabeça, a admiração que lhes conquistou e a coragem que eles tiveram para demonstrar que perceberam a mensagem.

A única diferença que essa cena me provoca está na crença. Há quase trinta anos acreditava que os professores existiam exactamente para fazer-nos pensar pela nossa cabeça, para que descobríssemos o mundo. Hoje sei que a maior parte deles nem sabe como isso se faz.

Vivemos pelos parâmetros que alguém definiu serem certos ou errados, buscamos no ontem o comportamento de amanhã. Somos cópias, mais ou menos fiéis, uns dos outros. Não arriscamos fugir muito do “normal” sob pena de sermos julgados em vez de julgadores.

Corremos a vida inteira atrás de qualquer coisa que não sabemos bem o quê. Sacrificamos a nossa saúde, o nosso descanso, a nossa família, em nome do “tem de ser”. Procuramos posses materiais que, acreditamos, nos atestarão como sendo pessoas de sucesso.

Num mundo onde se paga balúrdios por obras de arte originais ou por objectos de luxo exclusivos, contentamo-nos em ser simples réplicas, feitas em massa, para consumidores pouco exigentes.

Agrada-me acreditar que, enquanto aluna, teria coragem de subir à mesa. Aliás, agrada-me acreditar que teria coragem de ser a primeira a subir à mesa, e de lá ficar, mesmo que mais ninguém subisse. 📽

Que nem a morte nos separe.

Por mais que respeite a diversidade (e respeito!), no meu dia a dia vivo a minha vida entre poucas pessoas e com muitas semelhanças entre si. Tenho a felicidade de conviver com a maioria delas por opção, são pessoas com quem me identifico e de quem gosto muito.

Neste blog já confessei que não sou amante do ser humano e nem pretendo aprimorar a convivência, em muito graças à minha condição de socialmente inadaptada.

Contudo há uma característica que me une, de verdade e com o coração, a muitos milhares de pessoas, tantas e tão diferentes. E acreditem em mim quando digo diferentes: homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, simpáticos, sisudos, de todas as cores, credos e com os mais variados penteados – diversidade no seu estado mais puro.

Pensava sobre isto na quinta-feira quando fui levar a Laurinha à veterinária. À chegada fui avisada que talvez demorasse porque a equipa estava de volta de um cão que tinha caído e, como se não bastasse, depois da queda, tinha sido mordido por outro cão. O rosto das duas senhoras que estavam na sala de espera, creio que mãe e filha, não deixava margem para dúvidas, o cão era delas.

A dada altura ouviu-se o latir agudo do cão, com as dores, e de seguida ouve-se o choro da mãe. Estavam ambas num sufoco incrível.

Eu nunca as tinha visto, e não sei se alguma vez voltarei a ver, mas naquele momento também eu rezava pelo cão.

Quando entrei para a consulta perguntei por ele e soube que o prognóstico era reservado. Voltei a perguntar por ele no final do mesmo dia, as médicas ainda estavam muito reticentes. No final do dia seguinte fiquei genuinamente feliz por sabê-lo bem e em casa nas próximas 24 horas.

Não sei nada daquelas pessoas, a não ser que no sábado tiveram o seu companheiro de volta a casa e, a julgar pela angústia que vi, calculo a alegria que sentiram em vê-lo cheio de saúde.

Tenho para mim que o verdadeiro amor, aquele mesmo puro, sem nenhuma reticência, sem mágoa, sem cobrança, só pode vir das crianças (bem novinhas) e dos animais. É um olhar diferente, puro, enche-nos a alma e o coração.

E amor do bom, daquele de verdade, é amor na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, pelo menos até que a morte nos separe.

Perder um fiel amigo patudo é talvez pior que perder um outro amigo. O outro amigo seria amigo de muitos outros que, parecendo que não, ao chorar a sua perda aliviam a nossa dor. É uma dor partilhada, entendida, expressa, aceite e visível aos olhos de todos os amigos.

Um amigo patudo não, a dor é outra, mais profunda. É tão nossa, quanto nosso foi o amor e a lealdade que nos deram em vida. A troca de olhares, a cumplicidade entre dois seres que falam sem dizer palavra, que se entendem com uma afinidade perfeita, é impossível de descrever e é impossível de partilhar. Entre nós e o nosso amigo, só os dois conhecemos o que vivemos, e só cá fica um para chorar a saudade.

Talvez por isso aqueles que amam os animais são solidários entre si. Porque sabem que só eles entendem o sentir do outro. Isto pessoas, não vem nos livros, só sabe quem sente, não se disfarça. Percebe-se que estamos entre “iguais” pelos olhares, pelos gestos, no cuidado, na protecção, na preocupação, no respeito, no tom da voz, nas palavras que lhes dirigimos… Percebe-se que estamos entre “iguais” quando os outros rezam pelos nossos como nós pelos deles. E nunca são demais.

 

Este post, com muita saudade, é dedicado ao Bota, à Putcha, ao Quito e à Zebra. 🐈🐈🐈🐈

Pensamentos para pensar – II

Hoje faz vinte anos que Darcy Ribeiro faleceu. Não conhecia o seu nome até me cruzar no facebook com um artigo alusivo às duas décadas sobre a sua morte, falava sobre aquilo que fez em vida, os seus ideais e as suas lutas.

Perdi-me de amores por toda a essência que está nestas palavras: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” 👏

Humor sem pudor.

Ontem dei por mim num espetáculo de humor negro. Eu e o A. fomos convidados pela T. e o M.

Não conhecia o humorista e nunca tinha estado num registo daqueles. Podia ter pesquisado sobre ele mas não quis. Tinha a intenção de me por à prova “sem rede”.

Todos sabemos que rir faz bem, mas rir, especialmente de humor negro, requer sabedoria – mais da vida que dos livros. Não só para perceber a piada (o que dá sempre jeito), mas principalmente para conseguir rir dos nossos medos e do gozo às nossas convicções.

É preciso estarmos muito seguros de quem somos e no que acreditamos para rirmos da nossa verdade. Rir é isso mesmo, é o acto de gargalhar, não é concordância, apoio ou validação.

Adorei o espetáculo, as emoções, o ser capaz de por-me à prova, o saber rir do gozo a temas delicados que defendo, alguns com fervor.

O respeito pelo outro, pela sua maneira de pensar ou de actuar, é cada vez mais escasso, e por isso mesmo, cada vez mais necessário. A minha liberdade acaba quando começa a do outro. E o bom senso deve estar sempre alerta para deixar a inteligência caminhar sem nos aproximarmos de fundamentalismos.

Cordes, out! Be great and come back often to remember us that we all need to climbe mountains. 🇬🇧

Cristina, a Ferreira.

Dizer-me fã da Cristina Ferreira talvez distorça a forma como a vejo. Eu não sou apreciadora das revistas cor-de-rosa, ou de estrelatos, ou de glamour, nem moça para sequer atravessar a minha cidade se a souber por cá. Ser fã de alguém é uma expressão que me leva sempre para a idolatria e, bem vistas as coisas, para teenagers a agarrar cabelo.

Sou antes uma admiradora confessa da Cristina Ferreira. E de muitas outras “Cristinas” que, sem o mesmo apelido, têm o mesmo ADN, envoltas em tantas ou menos luzes da ribalta.

Gosto de gente que arrisca, que não quer agradar a todos, gente inteligente, astuta, que vai à luta, que não abre mão das suas convicções, gente de fibra. E, ao contrário do que parece acontecer com a maioria, gosto mesmo quando as pessoas acertam, quando a vida lhes sorri, quando conquistam os seus sonhos.

Enche-me a alma, dá-me motivação, inspiração, faz-me acreditar ainda mais no meu caminho.

Também eu não sou da maioria, acho a normalidade uma falta de criatividade, não sou nem do nim nem do talvez. É para a frente que a gente se entende. Se cair levanta. Arregaça as mangas, faz acontecer.

A Ferreira não conheço pessoalmente, mas tenho a sorte de conhecer outras como ela. Se fosse sobre as minhas “Cristinas” poderia citar virtudes e defeitos que lhes reconheço, sobre a CF não posso, precisamente por não a conhecer. Posso só falar sobre a figura pública, dizer que é uma comunicadora multifacetada, que lhe reconheço graça, jovialidade, polivalência, que demonstra ser uma mulher de família e, ouso acrescentar, uma mãe extremosa.

Há pessoas que não gostam dela. E eu acho óptimo – a diferença permite a evolução.

Há pessoas que lhe desejam o fracasso. E eu acho péssimo.

A mesquinhez, o interesse na vida do lado, o querer uma galinha maior que a do vizinho, nunca vai fazer ninguém crescer – nem como gente, nem na vida.

Não sei as suas emoções quando escreveu estas linhas, mas sei das minhas quando as li: “É difícil viver num país onde querem que falhes, onde desejam o tal fracasso. Há dias em que equacionamos escolhas e caminhos. E depois percebemos que será sempre assim. Aqui ou a vender bifanas. Basta ser íntegro, honesto, trabalhador.”

Senti os meus olhos ficarem húmidos, um ligeiro aperto no coração, um misto de tristeza e compreensão. E fui invadida por várias memórias pessoais que subscrevem tudo o que ali está escrito.

Ousar fazer o que acreditamos, trabalhar afincadamente, com honestidade, com princípios, norteados pela verdade, e provar que somos capazes, incomoda muita gente.

Por vezes, incomoda até quem nos paga o salário. Como se ao pagar-nos não nos quisessem pela nossa inteligência, mas antes para que os fizéssemos sentir inteligentes (mesmo quando tal virtude não lhes assiste).

Tenho para mim que este tipo de pessoas, as que se chateiam com o entusiasmo dos outros, pertencem a uma (ou mais) de três categorias: mal amadas, mal resolvidas, mal fodidas.

O que me aborrece mesmo é que este tipo de pessoas, lamentavelmente, existe em larga maioria e, por isso mesmo, a convivência é praticamente obrigatória. E té-los como companhia é o mesmo que estar na praia, num dia solarengo, e de repente o céu encher-se de nuvens. São pessoas que não trabalham para brilhar, só mesmo para apagar o brilho de quem trabalhou para isso. ⛅️

Quanto tempo o tempo tem?

Sou pessoa de “deixar para a véspera” desde os tempos de estudante, e normalmente não me estresso muito com isso. Reconheço que, quer do ponto de vista racional, quer do ponto de vista emocional, funciono muito melhor sob pressão. Não ter muito tempo para decidir faz-me ser prática, ver com nitidez os prós e os contras (embora nem sempre acerte!). A decisão torna-se mais intuitiva e menos condicionada por outras opiniões ou influências, tenho menos tempo para “ses” e “porquês”.

Do ponto de vista conceptual tenho uma relação excelente com o tempo.

Tenho sempre tempo para tudo, mesmo quando já estou atrasada. É uma característica detestável. Não é uma escolha, é claro. É mesmo uma incapacidade que tenho, a de saber quanto duram cinco minutos!

A única forma de chegar a horas a um compromisso é falhar o anterior (e mesmo assim não aposto). Pode não ser um atraso de horas, mas aqueles minutinhos ninguém mos tira. Costumo dizer que quando a morte chegar é provável que tenha de esperar por mim, sentadinha a entreter-se com qualquer coisa.

Gosto muito de relógios, acho-os um acessório elegante, mas sou tão desligada com a pontualidade que raramente os acerto quando muda a hora. Até com o relógio do carro faço isso, é sempre o A. quem tem esse cuidado. Graças a Deus que as horas no telemóvel e no computador acertam-se automaticamente. Havia de ser bonito…

Agora, a questão é outra, enquanto conceptualmente lido muito bem com o tempo, sou totalmente inapta para lidar com ele na realidade. A teoria é uma, na prática a coisa é outra.

Tenho hoje a idade que, quando adolescente, achava ser “muito cota”. E a maior parte de mim nem acredita que, na verdade, eu já tenho essa idade. Se for honesta, a maior parte de mim, ainda acha que tem a mesma idade de quando era adolescente, mais coisa menos coisa.

Por motivos de força maior – flacidez e rugas de expressão – andei a pesquisar cremes para a minha cara e vi-me na categoria “pele madura”. Vi vídeos no YouTube sobre cuidados da pele, acabei a ver outros sobre como maquiar a dita pele madura, encontrei material interessante, e em menos de um nada os vídeos sugeridos já eram sobre menopausa. Respirei fundo, desliguei a aplicação e estou a tentar lidar com o facto de que já não devem faltar muitos anos, o que por sinal, até ao momento, não está a correr grande coisa.

Eu? Menopausa? Ahh? Como? Mas não passaram só uns cinco minutos desde que fiquei menstruada pela primeira vez? Putz… 🤕

Poder, disse ela.

Há meia dúzia de anos atrás eu e o A. fomos almoçar a Guimarães. O restaurante ficava muito perto de uma estátua de Afonso Henriques. Lembro-me até hoje de ficar a olhar para ela e pensar porquê ele? Porque não o João que morava numa qualquer praça, ou o José da porta ao lado, ou o Joaquim da esquina? Porquê o Afonso?

Este pensamento não tem nada a ver com o dito Afonso, tem muito mais a ver com todas as pessoas que simplesmente o aceitaram como tal.

O tempo de Afonso Henriques já lá vai há muito, mas nunca deixou de haver “Afonsos” até hoje. E como não sou anárquica, espero que assim continue.

A questão é como se chega a “Afonso”? Como conquistar a confiança e o respeito de um povo (ou pelo menos da sua maioria)?

Nos tempos que correm esta deve ser pergunta para um milhão de dólares. Depois do Brexit e de Trump, até os maiores estudiosos de política internacional têm muito pouco para acrescentar nesta resposta.

Alegadamente os candidatos fazem a sua apresentação, defendem as suas ideias e os seus ideais, andam de terra em terra para conquistar o maior número possível de eleitores, e, como nos ensinam os contos de fadas, ganha o melhor, o mais justo, o mais competente.

Da pessoa no cargo do poder, seja como presidente de um país, de um governo ou de uma empresa, espero proactividade, respeito, credibilidade, honestidade, inteligência, empatia, coragem, astúcia. E ainda mais! Se tenho de o aceitar como líder deverá ser por o admirar e não por me ser imposto.

Tenho dificuldade em resignar-me, mas infelizmente já estou melhor nisso do que há uns anos. Conformar-me isso já é mais difícil. Talvez daqui a uns anos diga, sem grande estímulo, que a minha resignação e a minha conformação andam de mãos dadas.

Como podemos aceitar de ânimo leve que façam e desfaçam, e voltem a fazer, o que lhes apetece com os nossos direitos, com as nossas conquistas, com as nossas crenças?!

Mesmo quando compramos um par de calças podemos arrepender-nos e devolvê-las. E com quem não honra a cadeira do poder, o que podemos fazer? Comer e calar? Esperar que a pessoa mude ou saia do cargo? Despedirmo-nos da empresa?

Efectivamente, pelo que se diz, quem manda tem até o direito de mandar nas nossas vidas – directa ou indirectamente. Tem um direito grande! Mas os direitos e os deveres são directamente proporcionais. Quando temos um papel tão importante na vida de outros devemos-lhes o nosso melhor. E todo o melhor deve ser trabalhado e melhorado todos os dias.

O pensamento a curto prazo, o princípio do próprio umbigo, a adorável zona de conforto, os amigos lambe-botas, o machismo, a chica-espertice, o factor cunha, enfim, os princípios que regem a larga maioria.

Infelizmente estamos a anos luz da meritocracia!

Neste preciso momento sobra-me o Papa Francisco para continuar a acreditar.

O resto, quer a nível governamental, quer a nível empresarial, parecem-me personagens saídas do Auto da Barca do Inferno. Até nós, pessoas normais, estamos representadas pelo Parvo.

Diz-se que a moda é cíclica, que de x em x anos, voltamos a usar o que já tinha estado na berra mas foi considerado piroso com o passar dos anos.

Será assim também com a evolução humana? Parece que a evolução acontece durante uns anos para depois seguirmos para a involução e, novamente no ponto zero, voltamos à evolução. E por aí vai.

A paz no mundo, o fim da fome, a harmonia entre os povos, são de tal forma clichés que usualmente são considerados “os desejos das Misses”. Quase como se estivéssemos todos a gozar com o que cada desejo representa. Parece que é esta a esperança que cada um tem na humanidade… 🤐