Eu procrastino, tu procrastinas, ele procrastina.

E mesmo que tu e ele não procrastinem, eu faço-o pelos três.

Dizem os antigos que sou boa para ir buscar a morte, eu costumo dizer que quando ela chegar vai ter de esperar um bocadinho porque não chego a horas para nada.

Eu Bitaites, confesso-me.

Seria em Maio que as minhas caminhadas começariam. O mês ainda não acabou é certo, mas a ideia era começar logo na primeira semana, de modos que estou assim para o atrasado, não?!

A leitura de Janeiro passou para Fevereiro e assim tem sido mês após mês, não tarda estamos em Junho.

E a publicação diária aqui no blog tem sido… vá, tem sido e isso já é do caneco!

Esta semana teve os seus momentos. Relaxei no Pilates (o bem que aquilo me faz senhores!), continuei na senda de me adaptar à nova realidade da Lara (e continuarei, porque parece faltar um bom bocado para lá chegar), tomei decisões que implicam amortizações.

E sonhei, começa a ser frequente o sonho com projectos futuros.

Dizem que a vida tem o seu próprio tempo, acredito nisso. Mas, assim como quem não quer nada, espero que ela seja das que não procrastina. ⏱

13 de Maio.

Nossa Senhora de Fátima.

Hoje é o seu dia. O dia da fé, da crença, da emoção.

Hoje é dia de relembrar que há coisas que a ciência não explica, que os milagres acontecem e que o amor entre os Homens deverá ser uma constante.

Hoje é dia de acreditar que o que vier a seguir há-de ser melhor. 🙏

Se ao menos soubessem…

Estava a ver uma reportagem no Jornal da Noite sobre a Linda de Suza, como chegou a França, com uma mão à frente e outra atrás, e mais um filho para criar, sem saber falar uma palavra de francês, sem dinheiro e sem trabalho, com uma única mala, de cartão. Faltam-me palavras para expressar a minha admiração por quem passou, e passa, situação igual. É muita coragem, é muita força, é muita fé.

Lembrei-me da Rosinha, minha formanda em 2000/2001. Pequenina, franzina, tinha um rosto marcado mais pela vida do que pelo tempo, mas uns olhos lindos, que continuavam bem abertos e iluminados, com um olhar pueril, sem qualquer marca da idade, com curiosidade para aprender e ver o mundo. Era de sorriso franco e fácil.

Lembro-me de termos uma conversa que me marcou profundamente. A Rosinha, de olhar arregalado, dizia-me que eu era muito batalhadora e inteligente, que me admirava muito por eu ser independente, trabalhar, ganhar o meu sustento e conduzir! Ahhh, conduzir era para ela a cereja em cima do bolo. Aos seus olhos eu tinha o mundo na mão, e mais importante, para ela eu estava à altura do mundo.

Vi nas suas palavras a projecção de sonhos adiados ad aeternum.

Perguntei-lhe se ela, emigrada em França tantos anos, não se sentia uma mulher de “raça” por ter vencido tantas dificuldades – imaginava-as eu. Disse-me que não, que quando chegou não sabia sequer uma palavra de francês, entendendo que isso lhe estaria em demérito, e que só foi para lá para acompanhar o marido, tinham casado há quase um ano. Quando chegou a França ia grávida de quase nove meses (!) do primeiro filho. Entrou em trabalho de parto em casa, sem saber bem o que lhe estava a acontecer, sem saber como ir ter ao trabalho do marido, sem telefone (nem era tempo de telemóveis), sem saber ir para o hospital. Foi na rua, no passeio, que alguém percebendo o que se passava a levou ao hospital mais próximo. E foi por dedução que, no fim do dia, o marido lá foi ter.

Trabalhou anos a fio, nas limpezas, criou três filhos e sonhava com o que podia, regressar para uma casa própria em Portugal.

Perguntei-lhe se não achava que era merecedora de admiração. Disse-me prontamente que não, que fez o que havia de ser feito, só isso. Tinha ido uma única vez ao cabeleireiro, no dia do seu casamento, nunca foi ao cinema, nunca foi ao teatro… Percebi-lhe o vazio na voz. Não seria do teatro ou do cinema ou mesmo do cabeleireiro que ela queria falar, era antes de nunca ter feito aquilo que ela queria de verdade, só ela. E era isso que ela acreditava ver em mim.

No fim perguntei-lhe se não sentia a falta de conhecer o cinema ou o teatro. Disse-me que não, que só sentimos falta do que conhecemos, do resto, quando muito, temos curiosidade.

Ainda hoje, tantos anos depois, lembro-me dela com uma admiração profunda. Adorava aprender, estava a fazer o equivalente ao sexto ano de escolaridade, estava perto dos 60 anos, e o seu sonho era o que podia, fazer o décimo segundo ano.

Perdi-lhe o rasto, não sei o que foi feito dela e nem ela saberá de mim. Mas torço para que tenha o diploma do secundário afixado na parede, e que tenha ido ao cabeleireiro quando o foi receber. Torço para que perceba que tudo aquilo que ela fez foi muito mais difícil do que conduzir um carro. Torço para que lhe tenham ensinado a grande diferença entre nós: ela fez o que havia de ser feito, eu fiz o que podia ter feito mas muito porque a minha Mamy, tal como a Rosinha, fez o que havia de ser feito.

Acima de tudo torço para que continue com o mesmo olhar de quem quer conhecer, desejo que só, metade do mundo. Da outra metade espero que sinta a falta. 🌍

Inspiração do dia.

Mudei de visual há poucos dias, cortei o cabelo, pintei-me de loira. Gosto de mudanças, mudam ciclos.

Mas o meu cabelo sentiu-se, o loiro amarelou, a navalha entrou no corte e desbastou demais.

Hoje fui a um cabeleireiro novo, já muito recomendado pela minha cunha, o I.

“Achocolatei” e derreti. Não tinha expectativas, a não ser ver o meu cabelo mais saudável. Objectivo superado!

Há pessoas que gostam do que fazem e há pessoas que nascem para fazer o que fazem.

Looking inside for finding my own true talent. Today was about inspiration. Simple is always the best.

By the way, V., what a lunch!! 😘

Hoje foi o dia.

Adoro mudar o visual do meu cabelo. Fazer mudanças à séria. Isso de cortar as pontinhas não é audácia nenhuma.

Cortar, pintar, pentear. O rosto ganha nova vida e a vida ganha novas etapas.

Tenho para mim que esse gosto se desenvolveu à conta da minha avó. Eu tinha nove anos e um cabelo LINDO, comprido, preto, liso, sem jeitos. Pois que a minha avó encantava-se com a perspectiva de eu cortar o cabelo curtinho, à rapaz. Dizia que seria muito mais confortável, que não daria trabalho nenhum, que se veria melhor o meu rosto. Enfim, qualquer motivo para ela era argumento, até porque a ela nunca a vi senão com cabelo curto.

A minha mamy gostava de me ver com o cabelo comprido, mas também tinha gosto de fazer a surpresa à sua mãe.

Certo dia fomos ao cabeleireiro, ele perguntou duas ou três vezes se eu tinha a certeza, fez-me uma trança, fechou os olhos e cortou-me o cabelo de uma vez só.

O choque de ver uma miúda nova no espelho ficou cá dentro, como dizia Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

A minha avó faleceu pouco tempo depois, e eu guardei para mim o gosto pela surpresa que lhe fiz.

Inconscientemente, acho que volto ao dia da primeira vez sempre que mudo de visual. E fico sempre curiosa para ver a reacção das pessoas, talvez porque, infelizmente, a memória me tenha atraiçoado e não me lembre da reacção da minha avó, recordo apenas que ficou feliz. 💇

Dizem que quem corre por gosto não cansa.

Há muitos anos atrás, andava eu no liceu, tive como professora de inglês uma “lady”. Não era da realeza e não sei se seria das senhoras da alta sociedade. Era antes um exemplo de mulher, feminista e lutadora. Uma das Teresas da minha vida.

Fumava que Deus a dava. Tinha voz rouca. Andava sempre maquiada, e pela minha memória o batom era sempre vermelho. Usava óculos com lentes jeitosas. As rugas não disfarçavam que seria mais velha que a maioria das professoras. E tinha um hábito com o qual nós, adolescentes parvos (como todos o são), gozávamos, tomava café sem açúcar mas guardava todas as saquetas de açúcar que lhe serviam.

Soube entretanto que muitos anos antes tinha casado sem ter conseguido realizar o seu sonho, tirar um curso superior relacionado com o ensino, queria ser professora. Depois vieram os filhos, e pelas palavras dela, fez-lhe o que lhe competia, educou-os e deu-lhes asas.

Por isso mesmo quando entrou na faculdade já tinha mais de quarenta anos, concluiu o curso e começou a leccionar. Foi no seu tempo, mas foi.

Era uma figura carismática, com um quê de excêntrico.

De tudo o que ensinou, foi uma frase em português o que mais me marcou. Nunca mais esqueci. “Dizem-vos que quem corre por gosto não cansa, mas estão a mentir-vos. Quem corre por gosto cansa-se como os outros. A diferença é que chega muito mais longe!” 🏁

A minha melhor amiga.

Não gosto de esperar. Estar na segurança social, nas finanças, na sala de espera de um médico, no cabeleireiro, podem ser verdadeiras torturas. Ao longo dos anos desenvolvi um hábito que me ajuda a passar o tempo, e que de alguma forma me diverte. Observo as pessoas, os diálogos, tento imaginar a história de vida por detrás de cada um. Ouço verdadeiras pérolas, algumas humorísticas outras recheadas de sabedoria.

Há uns anos atrás, estava eu no cabeleireiro e uma das funcionárias falava sobre a felicidade de estar de folga no dia seguinte, ainda por cima parecia que ía estar bom tempo.

Alguém comentou que as suas folgas, com sol ou chuva, eram passadas a arrumar a casa e as roupas. A Carla retorquiu, disse que na vida podia ter poucos luxos, mas um deles era ter uma senhora a dias sempre durante as tardes das suas folgas. Assim, dormia de manhã, almoçava com a mãe, saía para passear, ía buscar o filho à escola, lanchavam os dois, e quando chegava a casa estava tudo arrumadinho.

Comentou que a mãe lhe dava sempre nas orelhas, que lhe dizia que devia ser ela a arrumar, guardar o dinheiro que pagava à senhora e fazer um peteiro.

Eu ouvi-a falar e concordei com a mãe, mas só até ouvir a sua perspectiva. Dizia ela que havia prazeres na vida que tinham de ser gozados, um deles era aproveitar o tempo livre para ser feliz. E rematou, “quando eu morrer vai para a cova a minha melhor amiga”.

Raismeparta, que super frase!

Realmente, a sabedoria nem sempre vem nos livros. Há pessoas que por si só são enciclopédias inteiras, mesmo que algumas só se cruzem connosco durante cinco minutos. 📚

Ontem, hoje e amanhã.

Sou da opinião que qualquer compromisso assumido ao longo de muitos anos deve ser sempre com direito a renovações automáticas. Casamentos, amizades e outras cumplicidades, empregos, investimentos e muitos outros sentimentos. Tudo pelo efeito que o tempo tem feito nas pessoas.

Hoje, quando penso em mim, reconheço que a pessoa que fui aos vinte é tão diferente desta que aqui escreve, que é justo dizer que o meu marido me traiu comigo mesma.

Aos valores mantenho-me fiel, mas a interpretação hoje é mais profunda, os fundamentalismos são rejeitados e a humildade em me julgar como uma mortal, pecadora, aumentou significativamente.

É nos vícios e nos gostos que mais me estranho. Sobre eles posso dizer que sou, em muito, o oposto daquela que já fui.

Verdadeira fã da Coca-Cola, elegia-a como minha bebida de eleição anos a fio. Dei um saltinho pelo Ice Tea, mas é nos braços de Baco que hoje me consolo, mais branco que tinto, mais maduro que verde, mais Douro que Alentejo.

Quando me falavam do Oriente intrigava-me o fascínio que a história, a cultura, os países, exerciam sobre os interlocutores. Só a comida me parecia interessante. Hoje são os meus olhos que ficam em bico, é a mim que me intriga a forma como vivem e é a minha curiosidade que desperta para conhecer cidades e praias.

Estudei vários anos francês e inglês. O inglês sempre foi o meu preferido, ao francês achava-o desinteressante, uma língua morta que não ouvia na música e que detestava nos filmes. Pois hoje ouço o francês com outros ouvidos, mais ecléticos de certo. Os mesmos que me permitem apreciar uma (literalmente) música clássica e com ela vibrar e sentir emoções.

A minha maneira de vestir também mudou, tinha um estilo mais clássico, muito monocromático e certinho. Hoje tenho um estilo mais variado, as calças são rotas e visto mais cor, adoro rosa com vermelho. Outrora achava que não desceria da elegância de um salto alto, hoje o conforto de uma sola rasa é por demais sedutor.

Já tive verdadeira adoração por perfumes, sapatos, bolsas. Hoje continuo a apreciar mas não sustenho a respiração. Só os produtos de beleza continuam a seduzir-me como outrora, ainda que hoje com mais antioxidantes, anti-rugas, reafirmantes e outras coisas como tal.

O gosto pelas mudanças de penteado é meu desde sempre, mas é de agora a coragem de cortar cada vez mais curto.

A gargalhada continua estrondosa, sai menos vezes é certo, mas curiosamente o meu humor alargou o espectro.

À exactidão das certezas preferi o conforto das dúvidas. Das ciências vim para as letras. Do preto e branco quero artes.

Às vezes dou por mim a pensar em quem era e quem sou. Aos vinte anos achava que sabia exactamente o que queria da vida, aos trinta achava que a vivia, e aos quarenta a única certeza que tenho é que passou depressa demais.

Há um encanto nisto de nascer já crescida, diferente do dia anterior, tendo como denominador comum o olhar curioso a apontar para o dia seguinte. Mas pelo sim e pelo não, porque o tempo tem um tempo que só ele sabe, desejo à mulher que vai nascer no meu corpo amanhã, que aprenda o que se sente quando se sabe apreciar o presente. 🎁

Parece que hoje é dia da Mulher.

E contra isso nada, afinal há dias para tudo, até para o homem, ao contrário do que se pensa.

Comemora-se hoje a luta que começou há séculos pelos direitos das mulheres, tema que continua muito pertinente apesar de tantos anos de sangue, suor e lágrimas (literalmente).

Diz-se que no dia 8 de Março de 1857, morreram aproximadamente 130 mulheres carbonizadas, quando foram trancadas na fábrica de tecelagem, em Nova York, onde trabalhavam, por estarem em greve. A greve era tão só por não acharem justo trabalhar 16 horas – não tinham tempo para os filhos.

Também há quem diga que essa greve em particular, e esse incêndio, são uma lenda (apesar de serem reconhecidos pela ONU e pela Unesco). Aconteceu sim um outro, por falta de segurança e excesso de horas de trabalho mas em 1911 – certo é que com mortes e na sua grande maioria mulheres.

Não obstante, a história é unânime, muitas greves existiram, muitas mulheres foram ostracizadas, muitas lutas se travaram.

De lá para cá muita coisa mudou, mas no essencial: trabalhamos mais do que os homens; não temos muito tempo para os filhos; especialmente nos cargos de poder continuamos a trabalhar o mesmo que os homens mas mais duas vezes para ganharmos voz; continuamos com acesso limitado aos cargos de poder; continuamos a ser discriminadas na contratação porque estamos em idade de parir; continuamos a ganhar menos do que os homens pelas mesmas tarefas; continuamos a ser matriarcas e a ter a gestão da casa quase por nossa conta; continuamos a “merecer” ser violadas porque a nossa maneira de vestir pode atiçar as hormonas masculinas; …

E depois dão-nos um dia, entre outros 364, e algumas acham simpático. Marcamos jantar com as amigas, fazemos brindes e pensamos que bom ter uma noite por ano para nos divertimos e não termos de cozinhar. Para as mais folionas até há propostas de restaurantes com homens conhecidos como figura de cartaz, e, como seria de prever, casa lotada.

Mulheres, enquanto o mundo não nos respeitar nenhuma de nós está de parabéns! Deixem-se de merdas, de jantares, de rosas, de homenagens. Em 1857 elas lutaram com a vida pelos direitos básicos. Em 2017 é imperativo ter vergonha na cara e continuar.

Um dia no ano é muita falta de ambição!!!

O mundo é nosso, não há poder no mundo que não seja parido por uma mulher.

Hoje, não é o nosso dia, hoje é o dia de quem começou a luta em 1857, e deu a vida por ela. Serão precisas gerações e gerações para ganharmos voz, para as bebés de hoje terem mais e melhores oportunidades amanhã.

Avisem os maridos, as amigas: jantares o c@r@lho, flores enfiem-nas num sítio que eu cá sei, nós queremos muito mais, nós somos Mulheres!

A foto que ilustra este post é de Carolina Beatriz Ângelo. A primeira mulher a votar em Portugal, tornando-se também na primeira de toda a Europa Central e do Sul, assim como de muitos outros países. Fê-lo em 1911, depois de ler a lei e de entender que o direito ao voto também a ela lhe estava conferido. Votou sim, mas não sem antes pôr a República em tribunal. A mesma República que dois anos depois mudou a lei para que tal episódio não se repetisse.

As palavras de Carolina sobre a sua interpretação da lei foram contundentes: “Conquanto não nos abra a porta, também nos não dá com ela na cara. Esse facto é que talvez o senhor não tenha notado e por isso se admire tanto”.

Carolina morreu cedo, no mesmo ano que exerceu o direito de voto. Deixou uma filha com apenas oito anos, mas apesar da tenra idade aproveitou bem o pouco tempo para lhe ensinar o que é isto de ser Mulher. 👏