
Ganhou! E ganhou tudo o que queria ganhar. O reconhecimento pela bonita voz que tem, a consagração do talento da irmã como compositora, a divulgação da mensagem humanitária que conseguiu passar, a saúde para se manter distante da sua “base” por quase uma semana, a vitória da “música com conteúdo e sem fogo de artifício”.
Ahh, ganhou também o Festival da Eurovisão! Um momento único para Portugal. Importante e emocionante para um povo habituado a conformar-se com resultados mediocres. Mas acredito que para ele tenha sido um ganho colateral, afinal não enganou ninguém quando disse que nunca sequer viu o Festival da Canção.
A primeira vez que ouvi falar dele foi através de um post de Nuno Markl, jurado do Festival da Canção 2017, que respondia a todos aqueles (muitos!) que criticavam a vitória de uma música que nos iria fazer passar vergonhas lá fora. Lembro-me de ter lido o Markl e de ter pensado que cantor seria aquele, capaz de ganhar à Deolinda do The Voice, aquele portento de cantora.
Soube algures que o tal cantor chamava-se Salvador Sobral e era irmão da compositora da música, Luísa Sobral. Talvez por não apreciar muito a voz da Luisa e por nunca ter ouvido falar do Salvador, não liguei nenhuma à coisa. Além do mais desde miúda “sabia” que o Festival da Canção nunca seria ganho por Portugal, questões políticas e financeiras sempre justificaram as pontuações anteriores, e eu acreditei nelas ao ponto de achar que assim seria para a eternidade.
A dada altura fala-se muito se Salvador vai ou não estar presente em Kiev por questões de saúde, foi assim que fiquei a saber que tinha alguma doença complicada. Mas também não foi por isso que vi a edição dele no Alta Definição mais de cinco minutos, enquanto fazia zapping.
Até que… Portugal passa as semi-finais! Achei ainda mais interessante porque havia todo um burburinho na internet sobre o facto de estarmos no top cinco das casas de apostas.
Fui ao YouTube e, pela primeira vez, vi a actuação e conheci a música. Na altura não soube bem definir o que pensei, até que li algures a expressão “performance disney-jazz”, a meu ver assenta-lhe como uma luva. Quanto à música, tem a capacidade de se entranhar, e cada vez que a ouvimos parece entranhar-se ainda mais do que na vez anterior.
Não resisti a pesquisar mais sobre o Salvador. Vi vários videos e admirei cada um deles.
Raio de miúdo tão desengonçado quanto carismático, de boca solta e pensamento livre. Interveniente, inconveniente e consciente. De uma consciência tão pura, nua e crua que inquieta.
Depois da vitória os olhos dele esboçavam surpresa e contentamento, mas nunca esboçaram deslumbramento.
A dada altura sentiu-se-lhe o cansaço, como se a adrenalina tivesse ido embora assim que saiu do palco. A conferência de imprensa fazia parte do protocolo, mas ele não. Recusou o título de herói nacional e demonstrou uma lucidez extrema quando falou da efemeridade da fama. Mesmo sem estar a cantar, todo ele foi emoção, foi verdade, foi simplicidade.
Sem demérito para todo o trabalho da compositora, dos músicos, dos técnicos, foi, acima de tudo, a emoção, a verdade e a simplicidade quem ganhou o festival. E a humildade, a de uma irmã que, escrevendo uma obra de arte, não se apossou dela e a entregou ao seu irmão.
Já foi chamado de arrogante, desalinhado, inadaptado. Afinal o miúdo é ousado, isso sim! Ousou manter-se fiel a ele mesmo, sem nunca pretender pertencer à maioria, conquistar fama, votos ou apoios.
E agora, com a taça, é ver a maioria comportar-se como se ele tivesse sido nascido e criado no seu interior, vitoriosos por terem acreditado nele desde sempre, aplaudindo de pé e incentivado o petiz a cantar desde cedo. Exactamente os mesmos que se insurgiram porque a música não tinha nada para dar ao Festival da Eurovisão, porque não era politicamente correcto falar e defender os refugiados, porque ele tinha tiques estranhos quando actuava e parecia drogado.
Senti uma emoção do caraças ontem. Sempre que Portugal recebia doze pontos inchava de orgulho. Quando acabaram as votações quase chorei. Mas a vitória não foi minha, nem da maioria, nem de Portugal, foi de uma equipa que trabalhou e acreditou que ia fazer bonito.
No final fui ao facebook ver o perfil do Nuno Markl, procurava a sua resposta a todos os que o haviam insultado dois meses antes, procurava o seu próprio ajuste de contas, a sua limpeza de fígado. Encontrei uma das melhores citação da noite “O que está a acontecer na Eurovisão é bonito, pá.”. Estava tudo dito, até porque não era preciso mais.
Nesta edição da Eurovisão o lema era “celebrar a diversidade”. O vencedor esteve à altura. E fez história. Vai ser sempre recordado como aquele que, mesmo com limitações no seu coração, soube amar pelos dois e encantar milhões. 👏
