Se ao menos soubessem…

Estava a ver uma reportagem no Jornal da Noite sobre a Linda de Suza, como chegou a França, com uma mão à frente e outra atrás, e mais um filho para criar, sem saber falar uma palavra de francês, sem dinheiro e sem trabalho, com uma única mala, de cartão. Faltam-me palavras para expressar a minha admiração por quem passou, e passa, situação igual. É muita coragem, é muita força, é muita fé.

Lembrei-me da Rosinha, minha formanda em 2000/2001. Pequenina, franzina, tinha um rosto marcado mais pela vida do que pelo tempo, mas uns olhos lindos, que continuavam bem abertos e iluminados, com um olhar pueril, sem qualquer marca da idade, com curiosidade para aprender e ver o mundo. Era de sorriso franco e fácil.

Lembro-me de termos uma conversa que me marcou profundamente. A Rosinha, de olhar arregalado, dizia-me que eu era muito batalhadora e inteligente, que me admirava muito por eu ser independente, trabalhar, ganhar o meu sustento e conduzir! Ahhh, conduzir era para ela a cereja em cima do bolo. Aos seus olhos eu tinha o mundo na mão, e mais importante, para ela eu estava à altura do mundo.

Vi nas suas palavras a projecção de sonhos adiados ad aeternum.

Perguntei-lhe se ela, emigrada em França tantos anos, não se sentia uma mulher de “raça” por ter vencido tantas dificuldades – imaginava-as eu. Disse-me que não, que quando chegou não sabia sequer uma palavra de francês, entendendo que isso lhe estaria em demérito, e que só foi para lá para acompanhar o marido, tinham casado há quase um ano. Quando chegou a França ia grávida de quase nove meses (!) do primeiro filho. Entrou em trabalho de parto em casa, sem saber bem o que lhe estava a acontecer, sem saber como ir ter ao trabalho do marido, sem telefone (nem era tempo de telemóveis), sem saber ir para o hospital. Foi na rua, no passeio, que alguém percebendo o que se passava a levou ao hospital mais próximo. E foi por dedução que, no fim do dia, o marido lá foi ter.

Trabalhou anos a fio, nas limpezas, criou três filhos e sonhava com o que podia, regressar para uma casa própria em Portugal.

Perguntei-lhe se não achava que era merecedora de admiração. Disse-me prontamente que não, que fez o que havia de ser feito, só isso. Tinha ido uma única vez ao cabeleireiro, no dia do seu casamento, nunca foi ao cinema, nunca foi ao teatro… Percebi-lhe o vazio na voz. Não seria do teatro ou do cinema ou mesmo do cabeleireiro que ela queria falar, era antes de nunca ter feito aquilo que ela queria de verdade, só ela. E era isso que ela acreditava ver em mim.

No fim perguntei-lhe se não sentia a falta de conhecer o cinema ou o teatro. Disse-me que não, que só sentimos falta do que conhecemos, do resto, quando muito, temos curiosidade.

Ainda hoje, tantos anos depois, lembro-me dela com uma admiração profunda. Adorava aprender, estava a fazer o equivalente ao sexto ano de escolaridade, estava perto dos 60 anos, e o seu sonho era o que podia, fazer o décimo segundo ano.

Perdi-lhe o rasto, não sei o que foi feito dela e nem ela saberá de mim. Mas torço para que tenha o diploma do secundário afixado na parede, e que tenha ido ao cabeleireiro quando o foi receber. Torço para que perceba que tudo aquilo que ela fez foi muito mais difícil do que conduzir um carro. Torço para que lhe tenham ensinado a grande diferença entre nós: ela fez o que havia de ser feito, eu fiz o que podia ter feito mas muito porque a minha Mamy, tal como a Rosinha, fez o que havia de ser feito.

Acima de tudo torço para que continue com o mesmo olhar de quem quer conhecer, desejo que só, metade do mundo. Da outra metade espero que sinta a falta. 🌍

Facebookmail

Leave a Reply to Quentineluri Cancel reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *