A minha tia J.

A minha tia J. foi uma das mulheres que mais me marcou na vida.

Ainda hoje, quando penso nela, sinto aqui um desassossego com Deus, não fez sentido o modo como partiu, tão cedo.

A J. era minha tia por casamento, quando eu cheguei ao mundo já ela tinha chegado à família. Eu vim a seguir ao primeiro dos netos, o meu primo P., seu filho com o meu tio Z..

Lembro-me dela muitas vezes. De toda uma vida fielmente dedicada ao trabalho e à família.

Tinha uma capacidade única de se entregar na alma de todas as prendas que me deu, que tanto me marcaram. Nunca foram só para marcar uma data, foram sempre para marcar uma etapa, uma emoção, para criar memórias. Como quem adivinha que vai embora cedo e quer deixar na memória dos seus a sua lembrança perpetuada.

Sendo do Minho o ouro fazia parte da sua vida, era o seu pequeno luxo. Tinha bastante, comprado com muito suor e sempre aos bocadinhos. Foi das suas mãos que recebi as primeiras contas para fazer o meu colar.

Lembro-me até hoje da alegria com que me telefonou a dizer que eu tinha ganho o cartão de uma ourivesaria onde éramos clientes. Não sei se teria ficado mais contente se fosse para ela.

A minha tia J. deu-me os meus primeiros soutiens, lindos, femininos, e no meu tamanho à data –  o que foi surpreendente porque ela não tinha nenhuma pista por onde adivinhar. Receber esse presente foi coisa “de mulher para mulher”. Fez-me sentir crescida! Ainda hoje os guardo com muito carinho.

Teve dois filhos homens, muito diferentes entre si, o P. e o V.. Eram o seu mundo, o seu maior orgulho. Tinha um gato, grande e lindo, muito bem tratado. E o meu tio, o seu Z., sempre muito paparicado.

A minha tia J. trabalhava numa pastelaria, entrava com o nascer do Sol e muitas vezes ao sair já estava a Lua. No inverno, entrava de noite e saía à noite, via o dia enquanto atendia a sua gente. Na Páscoa e no Natal aquela mulher trabalhava que não tinha explicação. E nunca a ouvi queixar-se.

Não havia quem não a conhecesse, quem não gostasse dela. Tinha uma figura cuidada, sempre de cabelo arranjado, não se maquiava, mas tinha uns belos olhos azuis, que em conjunto com um doce e franco sorriso, lhe emolduravam o rosto.

Quando a visitava na pastelaria enchia-me de docinhos. No Verão, dava-me sempre um gelado artesanal de cone que lá faziam – esses sim, os melhores do mundo.

Era uma pessoa de afectos. Alegre, enérgica e sem papas na língua.

Hoje, mulher que sou, já quarentona, o que acho mais impressionante era o facto dela estar sempre presente e, ao mesmo tempo, sempre a trabalhar. Não sei como o fazia, onde arranjava o tempo e a energia.

Só folgava um dia por semana, aos Domingos, mas tinha sempre a sua casa arrumada, com tudo limpo e nos sítios, era uma cozinheira de mão cheia, garantia todas as refeições para a família, tratava da roupa de todos, estavam sempre impecáveis. Enquanto a minha avó era viva, já acamada, visitavam-na todas as semanas e levava-lhe bolinhos para lhe adoçar a alma.

No seu dia de folga adorava receber a família e os amigos, com mesa farta, abraço apertado, voz alta e fala rápida. Sempre preocupada a ver se estavam todos bem, se não faltava nada na mesa, se todos estavam a comer.

A última lembrança física que tenho dela, foi quando, já doente com cancro, e em vésperas da sua operação, organizou uma festa de anos para o meu tio. Dizia que podia ser a última e não queria que fosse triste, nem que lhe faltasse nada. Juntou muitos, de sangue e da vida. Cozinhou, decorou, arrumou, limpou, amou.

Amou muito, toda a vida, e eu guardo a sensação de que amou mais do que foi amada. Talvez porque aquele que sabe dar por excelência, não sabe ser excelente a receber. Talvez porque ninguém imaginasse que ela fosse embora tão cedo. Talvez porque, mesmo se pudéssemos voltar atrás, a vida não deixasse fazer melhor.

Os seus filhos são a prova viva da mãe que ela foi, e não conhecer fisicamente as netas é uma privação que nunca vou entender. Que avó seria meu Deus… A B., a M., a M., esta última ainda a caminho, nunca vão perceber o amor que lhes estava guardado. Mas ela, lá de cima onde as vê, tenho a certeza que desce muito vezes para as amparar, para as mimar. Sei-o porque não se dava quieta no mesmo sítio, e porque nunca deixava que faltasse nada aos dela, muito menos amor.

O seu colo faz-me falta.

No dia do seu funeral não acompanhei o caixão até à sepultura, fiquei perto da entrada do cemitério. Onze anos depois, contrariando a minha natureza, fui procurar a sua última morada, queria vê-la. Creio que nunca mais voltei a entrar naquele cemitério desde o seu funeral. O seu colo estava à minha espera. Foi como se me guiasse porque, impressionantemente, eu fui ter com ela direitinha. Ao chamado do amor, nem a morte a impede de nos mimar. ❤️

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