Ontem, hoje e amanhã.

Sou da opinião que qualquer compromisso assumido ao longo de muitos anos deve ser sempre com direito a renovações automáticas. Casamentos, amizades e outras cumplicidades, empregos, investimentos e muitos outros sentimentos. Tudo pelo efeito que o tempo tem feito nas pessoas.

Hoje, quando penso em mim, reconheço que a pessoa que fui aos vinte é tão diferente desta que aqui escreve, que é justo dizer que o meu marido me traiu comigo mesma.

Aos valores mantenho-me fiel, mas a interpretação hoje é mais profunda, os fundamentalismos são rejeitados e a humildade em me julgar como uma mortal, pecadora, aumentou significativamente.

É nos vícios e nos gostos que mais me estranho. Sobre eles posso dizer que sou, em muito, o oposto daquela que já fui.

Verdadeira fã da Coca-Cola, elegia-a como minha bebida de eleição anos a fio. Dei um saltinho pelo Ice Tea, mas é nos braços de Baco que hoje me consolo, mais branco que tinto, mais maduro que verde, mais Douro que Alentejo.

Quando me falavam do Oriente intrigava-me o fascínio que a história, a cultura, os países, exerciam sobre os interlocutores. Só a comida me parecia interessante. Hoje são os meus olhos que ficam em bico, é a mim que me intriga a forma como vivem e é a minha curiosidade que desperta para conhecer cidades e praias.

Estudei vários anos francês e inglês. O inglês sempre foi o meu preferido, ao francês achava-o desinteressante, uma língua morta que não ouvia na música e que detestava nos filmes. Pois hoje ouço o francês com outros ouvidos, mais ecléticos de certo. Os mesmos que me permitem apreciar uma (literalmente) música clássica e com ela vibrar e sentir emoções.

A minha maneira de vestir também mudou, tinha um estilo mais clássico, muito monocromático e certinho. Hoje tenho um estilo mais variado, as calças são rotas e visto mais cor, adoro rosa com vermelho. Outrora achava que não desceria da elegância de um salto alto, hoje o conforto de uma sola rasa é por demais sedutor.

Já tive verdadeira adoração por perfumes, sapatos, bolsas. Hoje continuo a apreciar mas não sustenho a respiração. Só os produtos de beleza continuam a seduzir-me como outrora, ainda que hoje com mais antioxidantes, anti-rugas, reafirmantes e outras coisas como tal.

O gosto pelas mudanças de penteado é meu desde sempre, mas é de agora a coragem de cortar cada vez mais curto.

A gargalhada continua estrondosa, sai menos vezes é certo, mas curiosamente o meu humor alargou o espectro.

À exactidão das certezas preferi o conforto das dúvidas. Das ciências vim para as letras. Do preto e branco quero artes.

Às vezes dou por mim a pensar em quem era e quem sou. Aos vinte anos achava que sabia exactamente o que queria da vida, aos trinta achava que a vivia, e aos quarenta a única certeza que tenho é que passou depressa demais.

Há um encanto nisto de nascer já crescida, diferente do dia anterior, tendo como denominador comum o olhar curioso a apontar para o dia seguinte. Mas pelo sim e pelo não, porque o tempo tem um tempo que só ele sabe, desejo à mulher que vai nascer no meu corpo amanhã, que aprenda o que se sente quando se sabe apreciar o presente. 🎁

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