Eduardo, o terceiro e o “meu” Eduardo.

De todos os Eduardos este é o único que conheço pessoalmente, e de todos foi aquele que mais me mudou.

O Eduardo foi meu colega de trabalho. Falaram-me da sua perda provavelmente no dia em que o conheci. Poucos anos antes tinha perdido o seu único filho, o seu melhor amigo, o seu maior amor. Mas não foi assim que o Eduardo conquistou a minha admiração. A sua perda fez-me apenas sentir empatia por uma pessoa de quem, praticamente, só conhecia o exterior.

À data, as minhas funções eram de gestão sobre funcionários e procedimentos, contas e outras operações. Meti mãos à obra, estava focada. Queria inteirar-me de tudo, começar o quanto antes. Queria resultados. Queria ver acontecer.

Cedo percebi que o capital humano não era empreendedor, deixava a desejar no profissionalismo, tinha vícios e pouca determinação.  Como sempre e em todo o lado, havia os irrecuperáveis e os recuperáveis. O Eduardo, a meu ver, estava no lado dos irrecuperáveis.

Quando os nossos olhos vêem oportunidades, temos dificuldade em perceber a falta de entusiasmo dos outros.

Trabalhei muito, com afinco. Mudamos muita coisa, implementamos regras e procedimentos. Mas na verdade o que nunca conseguirei fazer, por muito que tente, é mudar mentalidades.

O tempo ensinou-me quais as mentalidades que deviam ser mudadas. Sem grande surpresa, e como habitual, as do topo da cadeia.

O Eduardo ensinou-me que não era irrecuperável, só que também não conseguia mudar mentalidades. Viu muito antes o que eu vi depois, que o homem do leme não tinha rumo nem prumo.

Profissionalmente eu acreditava em suar a camisola, em arregaçar as mangas, em fazer o que ainda não tinha sido feito. Quanto mais difícil o desafio mais aliciante o achava. Quanto mais energia me consumia mais fascinada eu ficava. Só precisava de acreditar e de admirar aqueles para quem o fazia.

O Eduardo fez-me reconhecer que essa forma extremada de viver a minha profissão servia para me cansar, para que não tivesse tempo para analisar a minha insatisfação, o meu inconformismo. Para não mudar o que quer que tivesse de ser mudado na minha vida pessoal.

O Eduardo fez-me olhar para mim e perceber que ao contrário dele, quando me desiludo eu opto por mudar, ele fica. Mas só porque tenho menos inteligência emocional para lidar com a falta de caráter, com a falta de admiração pelos pares, pela desmotivação generalizada de trabalhar um mês para receber um ordenado. Ele não.

Ele tem a sensatez de ouvir só o que quer, de dar o seu silêncio a quem não merece as suas palavras, de continuar dia após dia, na dele, porque para ele e para a sua “Mariquinhas” a vida é outra coisa. No trabalho tem os seus dias, mas no geral aguenta-se bem. Aprendeu a não trocar um mês de trabalho por dinheiro, troca-o sim por memórias, de passeios que fazem sempre que podem, de petiscos e copos que alimentam o corpo e a alma. Parecendo que não, faz muita diferença. No fim leva-se apenas o que se viveu.👼

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