Eduardo Galeano, o primeiro dos três.

Apesar de gostar de Eduardo, nunca foi nome que me dissesse nada de especial. Não tive nenhum amigo com esse nome, nenhum namorico, nem nunca o considerei para baptizar um filho.

Há alguns meses dei por mim a pensar na curiosidade de ter três Eduardos na minha vida. Cada um deles, à sua maneira, marcou-me, acrescentou-me conhecimento, enriqueceu-me a alma e fez de mim uma mulher melhor.

Hoje falo-vos do primeiro que conheci, por intermédio de um vídeo que a minha amiga T. me enviou.

Nesse vídeo, um jornalista espanhol entrevistava Galeano, jornalista e escritor uruguaio. Falavam das greves e revoluções que se viviam em Espanha por altura da crise financeira mundial, do seu impacto no Euro e na qualidade de vida dos espanhóis. Nas praças aglomeravam-se pessoas sem medo a lutar pelas suas conquistas, gritavam a plenos pulmões “se não nos deixarem sonhar, não vos deixaremos dormir”.

Galeano era um deles. Apesar de uruguaio, tinha uma relação próxima com Espanha, foi lá (e na Argentina) que se exilou por 12 anos, quando, após a vitória da ditadura pelo golpe militar no seu país, foi preso e viu o seu nome na lista do esquadrão da morte. Sobre esse período havia de ficar famosa uma das suas muitas citações: “As pessoas estavam na cadeia para que os presos pudessem ser livres”.

Em 2011, chegou a estar na linha da frente, ladeado por espanhóis, como muitas vezes esteve em outros países, com outros povos e outras culturas. Dizia que ali se vivia vitamina E, de Entusiasmo. Tudo porque acreditava que só o povo unido, independente de raças ou credos, poderia mudar o sentido hipócrita e interesseiro que o mundo enfrenta. Onde meia dúzia de pessoas detém o poder e o dinheiro, criam leis a seu favor, desrespeitam direitos e igualdades, privam a maioria de acessos básicos como uma educação conveniente, para que dessa forma predomine a cultura mediana e os mesmos de sempre não tenham concorrência à altura, nem à sua frente quem os enfrente.

“O que são as pessoas de carne e osso? Para os mais notórios economistas, números. Para os mais poderosos banqueiros, devedores. Para os mais influentes tecnocratas, incômodos. E para os mais exitosos políticos, votos.”

Conheceu o sucesso, viu as suas obras publicadas em dezenas de países e nunca se resignou nem trocou as suas convicções. Lutou contra a ditadura, era politicamente incorrecto e um homem sem medo. Acreditava na essência muito mais do que na aparência. Talvez por isso, num gesto genuíno e sofrido, três anos antes de morrer, ao chorar a perda do seu fiel amigo e companheiro, Morgan, a tenha considerado um duro golpe na sua vida, já por si tão repleta de tantas outras histórias que podia contar.

Falar de Galeano é um convite à abertura de espírito, à evolução humana, à rebeldia com causa.

Deixou este mundo em 2015, mas será eterno enquanto a utopia nos fizer falta para caminhar. 🏃

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