Parece que hoje é dia da Mulher.

E contra isso nada, afinal há dias para tudo, até para o homem, ao contrário do que se pensa.

Comemora-se hoje a luta que começou há séculos pelos direitos das mulheres, tema que continua muito pertinente apesar de tantos anos de sangue, suor e lágrimas (literalmente).

Diz-se que no dia 8 de Março de 1857, morreram aproximadamente 130 mulheres carbonizadas, quando foram trancadas na fábrica de tecelagem, em Nova York, onde trabalhavam, por estarem em greve. A greve era tão só por não acharem justo trabalhar 16 horas – não tinham tempo para os filhos.

Também há quem diga que essa greve em particular, e esse incêndio, são uma lenda (apesar de serem reconhecidos pela ONU e pela Unesco). Aconteceu sim um outro, por falta de segurança e excesso de horas de trabalho mas em 1911 – certo é que com mortes e na sua grande maioria mulheres.

Não obstante, a história é unânime, muitas greves existiram, muitas mulheres foram ostracizadas, muitas lutas se travaram.

De lá para cá muita coisa mudou, mas no essencial: trabalhamos mais do que os homens; não temos muito tempo para os filhos; especialmente nos cargos de poder continuamos a trabalhar o mesmo que os homens mas mais duas vezes para ganharmos voz; continuamos com acesso limitado aos cargos de poder; continuamos a ser discriminadas na contratação porque estamos em idade de parir; continuamos a ganhar menos do que os homens pelas mesmas tarefas; continuamos a ser matriarcas e a ter a gestão da casa quase por nossa conta; continuamos a “merecer” ser violadas porque a nossa maneira de vestir pode atiçar as hormonas masculinas; …

E depois dão-nos um dia, entre outros 364, e algumas acham simpático. Marcamos jantar com as amigas, fazemos brindes e pensamos que bom ter uma noite por ano para nos divertimos e não termos de cozinhar. Para as mais folionas até há propostas de restaurantes com homens conhecidos como figura de cartaz, e, como seria de prever, casa lotada.

Mulheres, enquanto o mundo não nos respeitar nenhuma de nós está de parabéns! Deixem-se de merdas, de jantares, de rosas, de homenagens. Em 1857 elas lutaram com a vida pelos direitos básicos. Em 2017 é imperativo ter vergonha na cara e continuar.

Um dia no ano é muita falta de ambição!!!

O mundo é nosso, não há poder no mundo que não seja parido por uma mulher.

Hoje, não é o nosso dia, hoje é o dia de quem começou a luta em 1857, e deu a vida por ela. Serão precisas gerações e gerações para ganharmos voz, para as bebés de hoje terem mais e melhores oportunidades amanhã.

Avisem os maridos, as amigas: jantares o c@r@lho, flores enfiem-nas num sítio que eu cá sei, nós queremos muito mais, nós somos Mulheres!

A foto que ilustra este post é de Carolina Beatriz Ângelo. A primeira mulher a votar em Portugal, tornando-se também na primeira de toda a Europa Central e do Sul, assim como de muitos outros países. Fê-lo em 1911, depois de ler a lei e de entender que o direito ao voto também a ela lhe estava conferido. Votou sim, mas não sem antes pôr a República em tribunal. A mesma República que dois anos depois mudou a lei para que tal episódio não se repetisse.

As palavras de Carolina sobre a sua interpretação da lei foram contundentes: “Conquanto não nos abra a porta, também nos não dá com ela na cara. Esse facto é que talvez o senhor não tenha notado e por isso se admire tanto”.

Carolina morreu cedo, no mesmo ano que exerceu o direito de voto. Deixou uma filha com apenas oito anos, mas apesar da tenra idade aproveitou bem o pouco tempo para lhe ensinar o que é isto de ser Mulher. 👏

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