As patinhas de Peter Pan *

Tenho para mim que a inocência de uma criança só pode ser comparada à de um animal. A única diferença é que a criança acaba por perdê-la e o animal não.

A forma como vêem o mundo é muito parecida, possivelmente por isso a convivência fica tão facilitada.

Precisam de muito pouco para ser feliz: brincar, barriga cheia, água da fresca, caminhas confortáveis, fraldas ou casotas limpas e muitos miminhos. Tudo o que vier a mais já é bónus.

Acreditar na fada dos dentes ou no pai natal é tão natural para uma criança como nunca o será para um adulto (por muito que disfarce o sorriso que esboça com ternura).

Entre crianças a imaginação foca-se na brincadeira, no faz de conta, mas como brincam todas em conjunto, muitas vezes a professora acaba aluna, o médico vira paciente, o bombeiro tem de ser cozinheiro.

Com um amigo imaginário isso nunca acontece, faz sempre o que queremos (por isso mesmo acho que todos o tivemos), com um animal também não, é o nosso maior cúmplice (sorte de quem passa pela experiência).

Desde miúda que tenho animais, e os gatos cedo me roubaram o coração. Lembro- me de mim, menina, a contar os meus segredos à Zebra, a dormir com ela e com o Quito debaixo da roupa, às escondidas da minha avó, da alegria que os três sentíamos quando chegava a casa depois das aulas.

A partir de certa idade a magia perde-se e a criança adultiza-se, os primeiros sintomas tendem a ser desacreditar na magia, nas fadas e nas princesas, nos príncipes e nos reinos. Não faltará muito para se instalar a “síndrome da opção rejeitada”, só enquanto somos crianças escolhemos uma de duas opções e seguimos em frente, felizes e contentes. Quando adultos demoramos o triplo do tempo a decidir, e independente da eleita, vamos passar horas com a rejeitada entalada nos pensamentos.

Nessa altura já perdemos a pureza da verdade, começamos a pensar antes de falar e há coisas que simplesmente não dizemos porque é feio ou não dá jeito.

Conheci o Miguel através do seu pai, à data era um menino com três anos e com a energia que os carateriza. Vivia com os pais e com a avó, que estava doente há algum tempo. Quando o conheci estava há dias a pedir um gato aos pais, estes aceitaram e adoptaram dois adultos irmãos, que não se separavam nem por nada.

Não tardou para que o Manchas se tornasse o melhor amigo do Miguel. O seu irmão, Faísca, passeava entre o jardim da sua casa e o da vizinha, e acabou por adoptá-la como sua tutora. Vinha de vez em quando visitar o irmão e desafiá-lo a visitar a sua nova casa.

Assim foi durante muito tempo, mas um dia, numa dessas “excursões”, o Manchas foi atropelado. Conseguiu chegar a casa, para perto do seu amigo, mas estava em mau estado. O Miguel ficou aflito, e o pai, a temer o pior, disse-lhe que talvez Deus estivesse a querer o seu amigo para Seu companheiro. O Miguel olhou-o com os olhos muito esbugalhados, lacrimejantes, e pediu-lhe “ó pai, não, pede-Lhe, por favor, para que não leve o Manchas, diz-Lhe para levar antes a avó”.

Julgar ou justificar o pedido do Miguel seria diminuir a pureza e a ingenuidade de uma criança de três anos. Fica tudo dito quando tudo o que havia a dizer saiu do coração.

Pela minha experiência pessoal ter animais é uma forma de manter viva a criança que há dentro de nós.

Continuo a contar segredos aos meus gatos, a dormir com eles, a precisar do seu mimo quando estou mais triste. Fazem-me lembrar todos os dias de que as coisas mais importantes da vida não tem preço, mas algumas têm pêlo.

Quando chego a casa, vencedora ou derrotada pelo dia que tive, feia ou bonita, aprimorada ou desmazelada, continuo a ser uma das pessoas mais importantes da vida deles, vêm buscar-me a porta a ronronar e a dar turras, como quem diz “tive saudades”.

E a partir desse momento eu visto o meu pijama e entro na Terra do Nunca, até ser de manhã.🌛

Nota à redacção: ao longo de todo este texto, e ao longo de toda a minha vida, considero que o respeito e a educação são valores que os tutores e pais transmitem desde cedo aos seres pelos quais se responsabilizam: as crianças e os animais.

* – texto escrito no âmbito de um concurso de conteúdos para Petable.com

Facebookmail

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *