Que nem a morte nos separe.

Por mais que respeite a diversidade (e respeito!), no meu dia a dia vivo a minha vida entre poucas pessoas e com muitas semelhanças entre si. Tenho a felicidade de conviver com a maioria delas por opção, são pessoas com quem me identifico e de quem gosto muito.

Neste blog já confessei que não sou amante do ser humano e nem pretendo aprimorar a convivência, em muito graças à minha condição de socialmente inadaptada.

Contudo há uma característica que me une, de verdade e com o coração, a muitos milhares de pessoas, tantas e tão diferentes. E acreditem em mim quando digo diferentes: homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, simpáticos, sisudos, de todas as cores, credos e com os mais variados penteados – diversidade no seu estado mais puro.

Pensava sobre isto na quinta-feira quando fui levar a Laurinha à veterinária. À chegada fui avisada que talvez demorasse porque a equipa estava de volta de um cão que tinha caído e, como se não bastasse, depois da queda, tinha sido mordido por outro cão. O rosto das duas senhoras que estavam na sala de espera, creio que mãe e filha, não deixava margem para dúvidas, o cão era delas.

A dada altura ouviu-se o latir agudo do cão, com as dores, e de seguida ouve-se o choro da mãe. Estavam ambas num sufoco incrível.

Eu nunca as tinha visto, e não sei se alguma vez voltarei a ver, mas naquele momento também eu rezava pelo cão.

Quando entrei para a consulta perguntei por ele e soube que o prognóstico era reservado. Voltei a perguntar por ele no final do mesmo dia, as médicas ainda estavam muito reticentes. No final do dia seguinte fiquei genuinamente feliz por sabê-lo bem e em casa nas próximas 24 horas.

Não sei nada daquelas pessoas, a não ser que no sábado tiveram o seu companheiro de volta a casa e, a julgar pela angústia que vi, calculo a alegria que sentiram em vê-lo cheio de saúde.

Tenho para mim que o verdadeiro amor, aquele mesmo puro, sem nenhuma reticência, sem mágoa, sem cobrança, só pode vir das crianças (bem novinhas) e dos animais. É um olhar diferente, puro, enche-nos a alma e o coração.

E amor do bom, daquele de verdade, é amor na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, pelo menos até que a morte nos separe.

Perder um fiel amigo patudo é talvez pior que perder um outro amigo. O outro amigo seria amigo de muitos outros que, parecendo que não, ao chorar a sua perda aliviam a nossa dor. É uma dor partilhada, entendida, expressa, aceite e visível aos olhos de todos os amigos.

Um amigo patudo não, a dor é outra, mais profunda. É tão nossa, quanto nosso foi o amor e a lealdade que nos deram em vida. A troca de olhares, a cumplicidade entre dois seres que falam sem dizer palavra, que se entendem com uma afinidade perfeita, é impossível de descrever e é impossível de partilhar. Entre nós e o nosso amigo, só os dois conhecemos o que vivemos, e só cá fica um para chorar a saudade.

Talvez por isso aqueles que amam os animais são solidários entre si. Porque sabem que só eles entendem o sentir do outro. Isto pessoas, não vem nos livros, só sabe quem sente, não se disfarça. Percebe-se que estamos entre “iguais” pelos olhares, pelos gestos, no cuidado, na protecção, na preocupação, no respeito, no tom da voz, nas palavras que lhes dirigimos… Percebe-se que estamos entre “iguais” quando os outros rezam pelos nossos como nós pelos deles. E nunca são demais.

 

Este post, com muita saudade, é dedicado ao Bota, à Putcha, ao Quito e à Zebra. 🐈🐈🐈🐈

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