Ousar sonhar.

Dito assim pode parecer estranho, mas é verdade, acho que não sei sonhar!

Parece uma coisa fácil, fechar os olhos e divagar pela alma e pela mente. Mas não me sai. O curioso é que sou assim desde que me conheço por gente.

Cresci muito depressa, por força das circunstâncias. Acho que isso me fez ser uma pessoa muito racional e objectiva. A emoção não me dava muito jeito, fazia-me ser mais vulnerável. Também por isso, creio que temi sonhar, pelas decepções eventualmente associadas às expectativas.

Nunca fui problemática, mas na adolescência tive os meus momentos. Fui educada com muita liberdade e nenhuma libertinagem. Cresci naturalmente e tornei-me mulher.

Como estudante era boa aluna, ou pelo menos muito razoável. Como seria expectável tirar um curso superior, deixei-me ir e escolhi o curso por exclusão de partes – gostava de investigação, ciência, mas não com humanos que o meu sangue é fraco. Estava a acabar o curso e comecei a “fazer curriculum”, ía a seminários, formações, workshops, conferências, tudo e mais alguma coisa, especialmente gratuita. Foi assim que surgiu a minha primeira experiência profissional.

Por mérito meu, de forma relativamente destemida, sempre agarrei as oportunidades e uma coisa foi levando à outra.

Em vésperas de fazer 39 anos tive a maior crise existencial que alguma vez imaginei. Comecei a questionar tudo e quase todos. Precisei de arrumar o meu eu interior, abrir gavetas, limpar o pó, deitar fora mágoas, encarar medos, arranjar espaço para novas vivências.

É um trabalho que ainda está em progresso.

Dou por mim a ser, pensar e sentir, de forma mais honesta comigo mesma. Cada vez percebo com mais clareza que sempre soube quem era, mas quase nunca fui. O interessante é que não existem bons motivos para assim ter sido por tanto tempo. Encontro só dois: não ser eu quem ocupa o primeiro lugar na minha vida (e ainda não sou, tenho mesmo de trabalhar isto!) e o efeito “um dia a seguir ao outro”.

Nunca fui de me queixar, mesmo das poucas vezes que tive alguns bons motivos para isso. Sou das que vê o copo meio cheio. Consciente de todos os privilégios que tinha na minha vida custava-me reconhecer a insatisfação que ainda assim sentia, tinha medo que a vida me castigasse. Evitava pensar muito nas coisas por isso mesmo, e depois vinha outro dia, quase todo igual ao anterior, com outras pequenas coisas para falar e distrair a atenção. Mas raismeparta se sou conformada, ou fã do tanto faz, do “nim”, do indiferente.

Juro, fiz muitas vezes esforços para caber na normalidade. Naquela maioria que trabalha das 09 às 18, que espera a sexta, o fim do mês e o Agosto – o famoso mês de férias. Que não gosta do que faz mas que nem pensa nisso, afinal “não podemos ter tudo o que queremos”. Que se regozijam com o seu pequeno poder, lá no seu trabalho, o tal que não gostam, mas onde sabem abrir excepções para os amigos e dificultar regras para os antipáticos.

Parar e ter tempo para contemplar o meu eu interior, aceitar as minhas limitações, perceber as minhas emoções, lidar com os meus medos, tem sido um presente precioso.

Dizem que não somos nem o passado nem o futuro, só o presente. Discordo. Nós somos o somatório do que éramos ontem com o que criamos hoje, e perceber isto vai-nos fazer escolher melhor o amanhã.

Tenho pensado muito, mas o que quero mesmo é dar-me à loucura de simplesmente ousar sonhar.

Aceitar que no caminho pode haver decepções, aprender a lidar com elas, não esquecer que também são emoções.

Mas não limitar a alma! Sonhar, levar-me mais além, fazer por eles, concretizá-los. Criar sonhos e segui-los no caminho, fazê-los a bússola do meu coração. 🌠

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