Poder, disse ela.

Há meia dúzia de anos atrás eu e o A. fomos almoçar a Guimarães. O restaurante ficava muito perto de uma estátua de Afonso Henriques. Lembro-me até hoje de ficar a olhar para ela e pensar porquê ele? Porque não o João que morava numa qualquer praça, ou o José da porta ao lado, ou o Joaquim da esquina? Porquê o Afonso?

Este pensamento não tem nada a ver com o dito Afonso, tem muito mais a ver com todas as pessoas que simplesmente o aceitaram como tal.

O tempo de Afonso Henriques já lá vai há muito, mas nunca deixou de haver “Afonsos” até hoje. E como não sou anárquica, espero que assim continue.

A questão é como se chega a “Afonso”? Como conquistar a confiança e o respeito de um povo (ou pelo menos da sua maioria)?

Nos tempos que correm esta deve ser pergunta para um milhão de dólares. Depois do Brexit e de Trump, até os maiores estudiosos de política internacional têm muito pouco para acrescentar nesta resposta.

Alegadamente os candidatos fazem a sua apresentação, defendem as suas ideias e os seus ideais, andam de terra em terra para conquistar o maior número possível de eleitores, e, como nos ensinam os contos de fadas, ganha o melhor, o mais justo, o mais competente.

Da pessoa no cargo do poder, seja como presidente de um país, de um governo ou de uma empresa, espero proactividade, respeito, credibilidade, honestidade, inteligência, empatia, coragem, astúcia. E ainda mais! Se tenho de o aceitar como líder deverá ser por o admirar e não por me ser imposto.

Tenho dificuldade em resignar-me, mas infelizmente já estou melhor nisso do que há uns anos. Conformar-me isso já é mais difícil. Talvez daqui a uns anos diga, sem grande estímulo, que a minha resignação e a minha conformação andam de mãos dadas.

Como podemos aceitar de ânimo leve que façam e desfaçam, e voltem a fazer, o que lhes apetece com os nossos direitos, com as nossas conquistas, com as nossas crenças?!

Mesmo quando compramos um par de calças podemos arrepender-nos e devolvê-las. E com quem não honra a cadeira do poder, o que podemos fazer? Comer e calar? Esperar que a pessoa mude ou saia do cargo? Despedirmo-nos da empresa?

Efectivamente, pelo que se diz, quem manda tem até o direito de mandar nas nossas vidas – directa ou indirectamente. Tem um direito grande! Mas os direitos e os deveres são directamente proporcionais. Quando temos um papel tão importante na vida de outros devemos-lhes o nosso melhor. E todo o melhor deve ser trabalhado e melhorado todos os dias.

O pensamento a curto prazo, o princípio do próprio umbigo, a adorável zona de conforto, os amigos lambe-botas, o machismo, a chica-espertice, o factor cunha, enfim, os princípios que regem a larga maioria.

Infelizmente estamos a anos luz da meritocracia!

Neste preciso momento sobra-me o Papa Francisco para continuar a acreditar.

O resto, quer a nível governamental, quer a nível empresarial, parecem-me personagens saídas do Auto da Barca do Inferno. Até nós, pessoas normais, estamos representadas pelo Parvo.

Diz-se que a moda é cíclica, que de x em x anos, voltamos a usar o que já tinha estado na berra mas foi considerado piroso com o passar dos anos.

Será assim também com a evolução humana? Parece que a evolução acontece durante uns anos para depois seguirmos para a involução e, novamente no ponto zero, voltamos à evolução. E por aí vai.

A paz no mundo, o fim da fome, a harmonia entre os povos, são de tal forma clichés que usualmente são considerados “os desejos das Misses”. Quase como se estivéssemos todos a gozar com o que cada desejo representa. Parece que é esta a esperança que cada um tem na humanidade… 🤐

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