Pedro, Hamid e, por certo, muitos outros.

Começo este desabafo com uma manifestação de interesse, sou pessoa que não gosta muito do ser humano no geral. Acho que ainda somos um animal absolutamente primata, norteado por instintos primitivos, com uma tremenda falta de respeito pelos outros e uma abusada cara de pau entre direitos e deveres. Nota à redação: tenho a sorte de conhecer honrosas excepções (e infelizes constatações!).

Por isso mesmo, não sendo fundamentalista, também não sou pessoa que gosta de se aventurar nessa coisa de conhecer novas pessoas, socializar, conviver assim no geral.

Desde que me lembro por gente sempre fui mente aberta. Muito ajudou ter sido educada por uma mulher que se divorciou há quase quarenta anos e que refez a sua vida amorosa várias vezes. Durante muitos anos ensinou-me (com palavras e atitudes) que não somos o que os outros pensam de nós, somos o que lutamos pela nossa felicidade.

E, também desde que me lembro por gente, sempre fui dona do meu nariz. Não acho que os outros possam definir os meus limites, as minhas regras, os meus desejos.

Pela minha história, pela minha personalidade, pelas pessoas com quem cresci, cedo aprendi que a minha liberdade acaba onde começa a do outro. Aliás considero esta uma das minhas mais bonitas virtudes. Acrescento-lhe a forma como, de maneira geral, encaro o preconceito.

Não sou racista, não defendo a superioridade de nenhuma religião, estou muito longe de ser homofóbica, e por aí vai.

Mas, e há sempre um mas, já vivi situações onde a minha capacidade de julgar foi muito mais rápida que a minha capacidade de observar.

Ontem foi a minha mais recente experiência. Estava a fazer voluntariado, com a T. e o M., quando se aproximou de mim um rapaz, de bicicleta, que me perguntou se eu falava inglês. Olhei para ele e disse-lhe que não. Quis evitar qualquer conversa, que em milésimas de segundo, imaginei ser para me pedir alguma coisa. Pois que, na verdade, o rapaz era voluntário da mesma associação e, como estava de bicicleta e nós estávamos a pé e carregados, o que ele queria mesmo era oferecer-nos a sua ajuda.

Soube mais tarde, por outra colega, que ele era recém chegado à associação. No dia em que se inscreveu, agradeceu várias vezes por, sendo estrangeiro, o deixarem fazer parte do projecto. Possivelmente esta será uma forma de integração à nossa cidade, a pessoas com uma cultura diferente, num país muito longe do seu, onde até a língua não ajuda.

No fim das contas, mesmo sem ser sua intenção, deu-me uma bela lição. Quão altruísta eu, que até estava a fazer voluntariado… Só me esqueci de um “pormenor”, era por pessoas e para pessoas que ali estava.

Nada como ver primeiro e julgar depois.

Eu fui ontem pela primeira vez, pontualmente, para dar um apoio ao M. até a T. chegar. Ele, desde que começou, vai todos os dias. Eu achei que ele me ia pedir alguma coisa. Ele só queria oferecer ajuda. 🤔

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