Autopsicografia.

A minha exposição artística foi muito curta até aos dias de hoje.

Estava no nono ano quando me deixei convencer a declamar um poema de Fernando Pessoa, em plena praça central da minha cidade, vestida com um fato e caracterizada com bigodinho, óculos e chapéu de coco para lembrar a imagem do próprio poeta.

Houve todo um conjunto de ensaios com mais duas colegas que me acompanhavam à viola. Estávamos em perfeita sincronia, elas começavam, davam o tom, no momento certo eu iniciava e, quando terminasse, havia mais dois ou três acordes. Simples assim.

Sinceramente, já não me recordo qual a efeméride que justificava tamanha iniciativa organizada pela nossa escola, mas, como eu, participaram muitos alunos, cada um com os seus “cinco minutos de fama”.

No dia, enquanto me vestia e me caracterizavam, já estava muito nervosa. A minha timidez, mas também a minha tenra idade não me davam qualquer tipo de segurança.

Desci as escadas, entrei para o palco e vi diante de mim dezenas de pessoas sentadas e outras tantas a pé, encostadas ao que podiam. No centro estava uma câmara de filmar, sobre um tripé, com um “cameraman” e a  luzinha vermelha ligada.

Tive a inteligência (ou o instinto!) de fixar o olhar numas letras de um reclamo colocado no cimo de uma loja, assim não via as caras das pessoas e quase dava para acreditar que não estava muita gente. Mas nesse momento eu já estava em pânico, não fazia qualquer tipo de movimento e tenho dúvidas que sequer os meus olhos pestanejassem.

As colegas que me acompanhavam à viola estavam, pelo menos aparentemente, seguras de si mesmas. Começaram a dedilhar e o som espalhou-se pelo recinto, eu conseguia ouvir mas não conseguia processar qualquer outra informação. Não sabia quando devia começar, nem tão pouco o que dizer, tive uma branca completa!

Lembro-me que, de repente, percebi alguém a acenar tresloucadamente para mim, era a minha professora de português (a responsável pela proeza!) a dar-me a primeira frase. Nesse instante abri a boca e deixei as palavras sair, com tanta pressa que quase se atropelavam umas nas outras. As colegas da viola, que tiveram de tocar os primeiros acordes mais do que uma vez na esperança que eu acompanhasse o tom, dedilhavam ferozmente para acabar a música o quanto antes. É que não só não entrei no tempo como disse todo o poema à velocidade da luz.

Nunca cheguei a ver o vídeo, creio que para guardar a esperança que não foi tão mau quanto deve ter sido.

Por obra do acaso não estava lá ninguém dos meus, por isso esta cena não perdura nas histórias da família.

Durante anos lembrava-me deste episódio com um frio na barriga, cheia de vergonha. De há uns anos a esta parte lembro-me com um sorriso nos lábios só de imaginar a cena. Como é bom saber rir de nós mesmos! 🎸

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