A dor e a fé.

Hoje, na fisioterapia, enquanto fazia o tratamento, ouvia a conversa de duas senhoras na cabine ao lado.

Falavam de uma terceira pessoa, uma conhecida de ambas a quem acabou de ser diagnosticado cancro no útero.

Falaram sobre os pormenores da doença, contacto de médicos especializados, trocaram testemunhos felizes de outras pessoas conhecidas que passaram pelo mesmo, confidenciavam uma espécie de crise matrimonial que a doente já estava a viver antes do diagnóstico.

Durante quase uma hora ouvi um rol de informações tal que, a dada altura, quase acreditei que já conhecia a pessoa.

Mas o que me captou a atenção de verdade foi o diagnóstico que ambas fizeram à doente quando uma delas segredou que ela não era uma mulher de fé.

Não a julgaram e nem defenderam que por isso merecia uma espécie de castigo. Apenas reconheceram que todo o processo de tratamento seria duplamente mais difícil, e o sucesso mais dificultado. Eu, mesmo com o ruído da pressoterapia, ouvi os meus pensamentos a concordarem com as minhas vizinhas.

Sou uma mulher de fé, acredito no Deus que criou o Homem – não no Deus que o Homem criou, mas sinto que há muito mais para além disto.

Acredito que lá em cima as nossas estrelas nos guiam o caminho, nos aquecem o coração. A saudade dói demais quando deixamos de estar na mesma dimensão, mas ainda assim estamos perto, muito perto. Sinto a minha avó desde o dia em que a perdi, há 31 anos, mesmo chorando quase todos os dias a saudade da sua voz, do seu colo e do seu cheiro.

Há quem defenda que aqueles que não têm fé são mais pragmáticos, sentem que ou é agora ou não há nada a fazer depois. Alegadamente vivem um dia de cada vez e sabem que um deles é o último. Dizem alguns que são mais felizes, mais leves e despegados.

Acredito que sem fé seja mais fácil de nos sentirmos desprendidos, mas com certeza estaremos mais perdidos.

Para mim a fé não é uma opção, é uma benção. A minha fé prova-se no nome Diena. E, rais me parta, se há amor maior do que este, que atravessa o tempo e a dimensão, sobrevive à falta do toque, do cheiro, do olhar.

Com fé ou sem fé todos iremos morrer um dia.

A diferença é que eu sei que os braços da minha avó estarão abertos à minha espera. O mio e o ronron da Putcha, do Botinha, da Zebra, do Quito, todos à minha volta. O meu avô a olhar para a sua menina. Julgo que até o meu pai estará à minha espera para conversar o que nunca tivemos oportunidade. Ahhhh, e a minha tia J., com certeza lá estará para me por a par das novidades enquanto me bate no braço à medida que vai falando.

Há momentos, muito raros, onde admito que poderia duvidar da minha conviccão, mas nem aí dá, o anjinho Guidinho não deixa! 👼

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