Dalai Lama.

Li esta frase quando tinha trinta anos, mais coisa, menos coisa.

À época era protagonista de uma interessante carreira profissional, pelo menos a julgar pelo olhar dos que me rodeavam e a isso me convenciam, mesmo sem esforço.

No fundo creio que pressentia que não sabia o meu caminho, mas intuía que não era aquele. Tanto que a frase ecoou cá dentro, encontrou-se com uma alma inquieta, insatisfeita e fez todo o sentido, palavra por palavra. Escrevi-a num post-it e colei-o no monitor do meu computador, no trabalho.

Era das primeiras coisas que via todos os dias quando chegava, e em certos momentos olhava para ele e tentava contar até dez – confesso que poucas vezes funcionou, nunca fui muito boa a controlar a minha impulsividade. Mas ainda assim ajudava-me a perceber que, no fundo, não havia muito a perder, eu não queria aquela vida para sempre. Na verdade eu nem teria o sempre, como aliás ninguém tem!

Fiz questão de trazer o post-it quando ganhei coragem para me despedir – a decisão da qual mais me orgulho até hoje.

Não precisava dele para me lembrar da frase, mas queria guardá-lo para que nunca me esquecesse do que pensava e sentia quando estava todos os dias, durante anos, em frente a ele.

Vivi anos a achar que a minha realização profissional se traduzia em euros, e que esses euros me dariam o que a “infância queria comprar”, como diz a cantiga. O status que a sociedade nos oferece quando temos um cargo importante, quando moramos numa casa grande, quando vestimos roupas de marca, é impressionante. Dizem sermos pessoas de sucesso, e nós corremos o risco de achar o mesmo.

Mas sucesso é outra coisa. Sucesso é ser livre, é ter tempo para fazer o que gostamos com quem gostamos, é ter paz de espírito, é, antes de mais nada, ter amor próprio, é pensar pela própria cabeça. E, na minha infância, não me lembro de nada mais importante que eu quisesse comprar.

Desde o momento em que li a frase de Dalai Lama, pesquisei sobre ele, desenvolvi profunda admiração e curiosidade pela pessoa. Seria com certeza alguém que adoraria conhecer. Soube anos mais tarde, por interposta pessoa, que foi alguém que o meu pai adorou conhecer. Há coisas que não se explicam… 🎎

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