Carla, a gémea.

Nascemos ambas em 1976.

Não tenho ideia de nos conhecermos até entrarmos para a escola primária, não obstante sermos vizinhas.

Mas a nossa história começou muito antes, mesmo sem sabermos.

A Carla foi posta na minha vida pela mesma razão que eu fui posta na dela, para a discriminação ser suportável e para assim transformarmos a diferença que nos unia na nossa força maior: éramos (e somos) filhas da mãe!

O mesmo é dizer que os nossos pais se separaram quando só a ideia era tabu – mesmo que fosse em Lisboa, imaginem na nossa pequena aldeia.

Às nossas mães devem ter chamado de tudo, ou talvez não, talvez “santa” não tivesse sido uma opção.

O engraçado é que Deus não dorme, e mesmo sem pais presentes, as duas tivemos grandes mães, uns avós de se tirar o chapéu e uma professora primária muito à frente do seu tempo. Apesar do preconceito fomos crianças felizes, fortes e muito cúmplices.

Nunca alinhamos muito na versão dos outros, mas aos outros era conveniente alinharem na nossa versão sempre que queríamos, caso contrário criávamos as consequências – tínhamos (e temos) personalidade forte.

Éramos bem comportadas, excelentes alunas, muito determinadas e, sei-o hoje, muito fortes por sermos unidas. Sabíamos que uma tinha a outra de forma genuína e por inteiro.

Partilhamos tudo, até o amor pelo mesmo rapaz – o V. (e nós as duas podíamos gostar do mesmo rapaz).

Hoje, ser filho de pais divorciados é absolutamente banal, mas naquele tempo era um escândalo. Imagine-se que era motivo para que as outras professoras da nossa escola não nos quisessem nas visitas de estudo. E as crianças, que conseguem ser muito mázinhas (isso continua igual), perguntavam-nos porque não tínhamos pai, porque ele não gostava de nós… E nenhuma sabia respostas, aliás as duas fazíamos as mesmas perguntas.

Com seis, sete, oito anos, sentíamos coisas que não sabíamos sequer expressar em palavras. Por motivos diversos e quase inexplicáveis, estivemos trinta anos sem nos ver. E no dia em que os nossos olhares se voltaram a cruzar estava lá tudo, o que nunca soubemos dizer e o que somos uma para a outra.

Hoje voltei a vê-la, falamos da vida em trinta minutos. Agora, enquanto escrevo, dou por mim a pensar no que dizem sobre gémeos separados à nascença, que mesmo sem saberem um do outro, sentem-se e vivem as mesmas emoções. Neste caso, e sem o mesmo ADN, não podia ser mais verdade.

Li há uns anos que a verdadeira definição de amizade resumia-se a um tipo virar-se para o outro e confessar um crime, o ouvinte, atento, pergunta de imediato onde está o corpo. Quando confrontado com a pergunta “para quê?” a resposta só podia ser uma “para te ajudar a enterrá-lo”.

Era boa ideia nunca precisarmos de cavar um buraco a meio da noite, mas tenho para mim que se eu precisasse, tu estarias lá sem me perguntares nada e, principalmente, sem me julgares. Se fosse o contrário (evita lá isso, matar alguém é capaz de ser chato), e para que conste, eu faria o mesmo. 👭

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